Desde sempre, a vocação confessa deste espaço foi incomodar, abalar as estruturas, tirar o leitor da zona de conforto na qual foi mergulhado pela mídia rasteira. Por isso mesmo, boa parte dos posts deste espaço suscitaram bastante polêmica quando publicados. E já que estamos na Semana especial de aniversário, nada melhor do que recorrer aos posts mais polêmicos do Dando a cara a tapa.
Para estabelecer esse difícil ranking, foram utilizados dois critérios. O primeiro, evidentemente, diz respeito à quantidade de comentários que o post suscitou. O segundo, ao qual só eu tenho acesso, relaciona-se com a quantidade de compartilhamentos realizada por quem achou interessante enviar o texto para outra pessoa, seja por email, seja pelo Twitter, seja pelo famigerado Facebook.
Estabelecidos os critérios, vamos ao quarto lugar dos “mais polêmicos”. Quem conhece esse espaço não terá dificuldade em adivinhar qual é. Afinal, Ciência e Religião são sempre temas que convidam ao debate. Quando se mistura as duas, então, é altercação na certa.
O Universo precisa de Deus? ou Não será a Ciência uma forma de crença?
Publicado originalmente em 23.9.14
Hoje recebi um email do meu dileto ACN a respeito de um artigo publicado por João Pereira Coutinho, um cientista político português que escreve para a Folha de São Paulo. No artigo, Coutinho dedica-se a demonstrar a irracionalidade presente na última declaração de Stephen Hawking sobre o velho embate entre Deus e Ciência. Para o físico inglês, é apenas uma questão de tempo até que o homem passe a conhecer “tudo sobre tudo no futuro, sem precisar de uma ajuda celestial”.
No fundo, a questão nem nova é. Para os cientistas propagadores do ateísmo, o Universo simplesmente “não precisa de Deus”. Isso significa dizer, em outras palavras, que todas as leis do Cosmos e tudo o que nos cerca derivam de uma conjunção aleatória de eventos atribuídos ao acaso. Por isso mesmo, não seria necessário um ser superior a governar os desígnios do Universo.
Que a declaração de Hawking é de uma assustadora presunção, ninguém discute. Afinal, mesmo para os cientistas mais renomados, predizer o futuro sempre foi exercício de charlatanismo. As variáveis envolvidas no desenvolvimento de fatos e eventos simplesmente não cabem em qualquer teoria que se possa imaginar. Se por um lado os cientistas acusam de irracionais aqueles que sujeitam seu destino ao governo de uma entidade superior, defender que a Ciência possa encapsular o futuro em algum modelo matemático encerra um irracionalismo ainda maior.
Mas minha questão aqui não é essa. Não quero aqui voltar à mesma tecla que repisei por mais de uma vez desde que o Dando a cara a tapa veio ao mundo. Interessa-me, na verdade, discutir outra coisa, que sempre se encontra latente quando esse tipo de controvérsia vem à tona: até que ponto o exercício e as práticas científicas não representam também uma forma de crença?
Tem-se por certo, por exemplo, que o Universo tem aproximadamente 13,7 bilhões de anos. A estimativa é projetada com base na velocidade de decaimento radioativo de determinados átomos, como o rênio e o urânio. Mas ninguém pode ter a comprovação científica da idade do Universo pelo simples fato de que não é possível observar o instante inicial em que tudo começou: o Big Bang. O melhor que se conseguiu até hoje foi uma “fotografia” do Cosmos com “apenas” 370 mil anos. Além disso, é simplesmente impossível “enxergar” o que houve antes.
E daí?
Daí que, para se firmar a idade do Universo como 13,7 bilhões de anos, deve-se “acreditar” – sim, exatamente, professar uma fé – de que, além desse limite de observação, tudo o que aconteceu antes obedece às mesmas regras aplicáveis ao que aconteceu depois. Do ponto de vista puramente teórico, portanto, nada garante que essa seja a idade do Universo. Não há como comprovar cientificamente, à margem de qualquer dúvida, tal fato.
Isso não é tudo.Dá-se de barato, também, que toda a matéria hoje existente no Cosmos deriva de uma sopa primordial de partículas, condensadas em um único ponto superquente. No entanto, surge a questão: de onde veio esse ponto inicial? Ou, de maneira mais clara, de onde surgiu a matéria que o constituiu?
Para parcela dos cientistas, mais radical, o Universo surgiu do nada. Falta explicar como isso seria possível sem quebrar uma das leis mais fundamentais da Natureza: a conservação das massas (ou da energia, lembrando que, desde que Einstein definiu a equivalência entra uma e outra, essa discussão tornou-se inútil).
Outra parcela credita a existência do nosso Universo a uma superposição de outros universos, cada qual formando um todo particular, imiscível com o nosso. Se por um lado isso explica a origem da matéria e do próprio Big Bang, por outro não resolve nada. O problema apenas muda de lugar: e o que formou esse composto exótico de Multiversos?
Tanto uma como outra hipótese encerram um problema insolúvel: nenhuma delas pode ser aferida de acordo com o método científico. Ou seja: nem o “Universo a partir do nada” nem o “Multiverso” podem ser comprovados ou mesmo observados pela nossa ciência. Logo, para defender uma ou outra alternativa, é necessário uma grande dose de crença naquilo que não pode ser provado. Desse modo, conclui-se que, pretendo-se racional, a Ciência termina vitimada pelo mesmo mal que ela acusa a Religião de possuir: a fé.
O difícil é convencer os cientistas a acreditar nisso.