A queda nas ações da Petrobras

Se há uma coisa que tem dividido o noticiário ultimamente é a Petrobras. Em um só telejornal, a empresa aparece em três editorias diferentes, monopolizando (sem trocadilho) o noticiário.

Na parte policial, discutem-se os desdobramentos da Operação Lava-Jato. No segmento político, especula-se sobre os efeitos que a crise pode ter sobre o ambiente já carregado de Brasília. Finalmente, nas matérias econômicas, as ações da empresa são retratadas como os carrinhos de montanha-russa. E o sobe-e-desce delas tem deixado atordoado o cidadão comum.

Não é pra menos. Desde quando foi criada pela campanha “O Petróleo é Nosso”, a Petrobras tornou-se quase um símbolo da identidade nacional. Poucas empresas podem se orgulhar de, a um só tempo, representarem a independência econômica brasileira e a capacidade do brasileiro de produzir coisas grandes. E a Petrobras é uma dessas empresas. Em razão disso, mesmo quem não é acionista da empresa costuma ficar apreensivo quando verifica que a petrolífera perdeu 60% de seu valor apenas no último ano, 25% apenas no último mês.

Como sempre acontece quando a Petrobras encontra-se envolvida em escândalos, as teorias conspiratórias costumam brotar, atribuindo o mau desempenho das ações a algum tipo de movimento especulativo destinado a privatizar a empresa e entregá-la ao capital estrangeiro. Nesse caso, infelizmente, o buraco é mais embaixo.

Pra começo de conversa, as ações da Petrobras caem porque a Operação Lava-Jato descobriu bilhões de reais saindo – literalmente – pelo ladrão. Aquilo que o balanço apontava como gastos em investimentos, na verdade, estava sendo desviado para mãos indevidas. Com isso, toda a análise contábil da empresa vai pelos ares. Para explicar por que isso acontece, vamos a um exemplo simples:

Imagine que você, pensando em valorizar seu imóvel, resolve reformar sua casa. Para mobilizar quarto, cozinha, sala e varanda, você gasta R$ 50.000,00. Se a casa valer R$ 100.000,00, ao final da reforma você terá, em um cálculo grosseiro, um patrimônio imobilizado de R$ 150.000,00.

No entanto, no decorrer da construção, você acaba descobrindo que o dinheiro que pagava para o marceneiro estava sendo desviado. Na verdade, os móveis custavam somente R$ 30.000,00. Os outros R$ 20 mil ele gastava em cachaça e mulheres. Resultado: do esperado patrimônio de R$ 150.000,00 ao final da reforma, você terá apenas R$ 130.000,00. R$ 20 mil se perderam nos desvãos da esbórnia.

É exatamente isso que acontece na Petrobras. Como não se tem idéia ainda do tamanho do rombo deixado pelas falcatruas de Paulo Roberto Costa & Cia., a PriceWaterhouseCoopers se recusa a auditar o balanço da empresa. Afinal, sem isso, não há como afirmar com clareza qual é o patrimônio total da petrolífera, descontada a ladroagem. Essa é a primeira razão para a queda das ações.

A segunda razão diz respeito à própria crise do petróleo. Como já foi abordado aqui, o ouro negro perde o brilho a cada dia que passa, descendo numa ladeira que parece não ter mais fim. Visto que o petróleo é fundamentalmente o único ativo negociado pela Petrobras, não é difícil imaginar por que as ações dela estão despencando. Eis a segunda razão.

Por fim, em um problema intimamente ligado aos outros dois, está a desconfiança quanto à capacidade de a empresa encarar o futuro. Melhor explicando, ninguém sabe se, com dificuldades de caixa e com o petróleo em queda, a Petrobras terá receita suficiente para fazer frente ao volume de investimentos necessários para explorar o pré-sal.

Desde que houve mudança no marco regulatório do Petróleo, a Petrobras passou à condição de exploradora exclusiva dos hidrocarbonetos, com participação mínima de 30% nos novos campos licitados em regime de partilha. Isso quer dizer que, a cada novo campo licitado, a Petrobras tem de desembolsar quantia equivalente a 1/3 do total. Para piorar, como só ela pode operar o campo, é ela a responsável pelos investimentos no maquinário necessário à exploração (sondas e plataformas). Esta é a terceira perna do tripé que corrói o valor das ações da Petrobras.

Observando-se friamente uma a uma, verifica-se que nenhuma das causas da queda da ações da Petrobras é motivada por movimentos especulativos. São todos problemas concretos, bem reais, causados em sua grande parte pelo desgoverno da empresa nos últimos tempos. No primeiro caso, a culpa é exclusivamente da corrupção da empresa (fator interno). No terceiro caso, a culpa é da mudança do modelo de exploração do petróleo (de novo, fator interno). No segundo caso, salvo a possibilidade de alguém querer dizer que o mundo inteiro está conspirando pela privatização da Petrobras, trata-se de um fator conjuntural sem a mínima relação com o destino da maior empresa brasileira.

Percebe-se, portanto, que o quebra-cabeças da conspiração contra a maior empresa brasileira não fecha. Além de não encaixar, para que a teoria fizesse nexo, seria necessário entender que o principal jogador a mexer as peças – o Governo – estivesse jogando contra o próprio patrimônio, algo absurdo até mesmo para os antipetistas.

Como visto, a crise pela qual passa agora a Petrobras é apenas uma variante do moto popular “aqui se faz, aqui se paga”. Melhor fariam os conspiradores se consultassem Shakespeare. Como disse Cássio a Brutus em Júlio César, “a culpa, meu caro, Brutus, não está nas nossas estrelas, mas em nós mesmos”.

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3 respostas para A queda nas ações da Petrobras

  1. Mourão disse:

    “Enquanto a imprensa acusa o governo de desvalorizar a Petrobrás, foi no governo FHC que a empresa chegou ao seu nível mais baixo no mercado US$ 15,5 bilhões. Mesmo com empresa perdendo valor de mercado no último ano, seu valor hoje é de US$ 90,7 bilhões, ou seja, vale seis vezes mais que valia no governo tucano.

    Se levarmos em conta a receita ela pulou de R$ 69 bilhões em 2002 para R$ 304,9 bilhões em 2013, com um aumento de arrecadação na ordem de 340%. No mesmo caminho, o Lucro líquido aumentou 190% (R$ 8,1 bilhões em 2002 para R$ 23,6 bilhões em 2013) e os investimentos passaram de R$ 19 bilhões em 2002 para 104 bilhões em 2013 (aumento impressionante de 447%.

    Investimento em pesquisas e tecnologia de produção

    O PSDB tentou sucatear a empresa para depois privatizá-la. Estancou investimentos em pesquisas e amargou estagnação na produção de óleo. Não foram descobertos grandes campos de petróleo, e o pré-sal estava debaixo dos seus bicos.

    Com a chegada do governo Lula em apenas três anos a Petrobras conseguiu o retorno do investimento que se traduziu na autossuficiência na produção de petróleo e descoberta dos campos do pré-sal. A produção que não passava de 1,5 milhões de barris diários em 2012, hoje chaga a quase 2 milhões por dia, sendo que a perspectiva é que esse aumento de produção se intensifique a partir desse ano, com a colocação de novas plataformas em produção.”
    Esse texto copiei do Blog Contraponto 15.647, mas a ideia observei i em vários outros textos. Você acha que tudo ou quase tudo isso é mentira e na verdade a Petrobras merecia ser um verdadeiro orgulho nacional no governo FHC e que hoje é uma empresa falida, cujas ações estão se transformando em …… lixo (eufemismo).

    • arthurmaximus disse:

      Minha questão nesse caso da Petrobras, Comandante, é que os problemas que levaram à queda das ações são bem reais e causados por ela mesma ou pelo Governo; não fazem parte de nenhuma conspiração do “mercado” com a “mídia” para vendê-la. A propósito, dê uma olhada nesse texto. Ele foi retirado do Blog do insuspeito Nassif. Recomendo a leitura:
      “Gostaria de comentar alguns pontos:

      O valor de ações de empresas, ou seja, o valor de empresas cotadas em bolsa, SEMPRE, no longo prazo (algo como uns 5 a 10 anos, no mínimo), acompanha os FUNDAMENTOS da empresa.

      O que são esses fundamentos? Basicamente lucros, endividamento (tamanho e custo) e margens de lucratividade (lucro/receita).

      Dito isso, fica claro que as ações da Petrobrás cairam em 2008 devido à crise internacional, em um movimento especulativo e também de queda do barril de petróleo.

      Porém, após 2010, a queda não tem a ver com a crise internacional e é devida, justamente, à piora dos fundamentos da empresa.

      O lucro vem caindo, as margens vem caindo e o endividamento vem subindo. Os fundamentos pioram e o preço da ação cai, não existe milagre, são fatos concretos.

      Apresentemos os dados:

      2010: Lucro: 35 bi; margen: 16,6%; divida: 116bi

      2011: 33bi; 13,6%; 155bi

      2012: 21bi; 7,45%; 196bi

      2013: 23bi; 7,55%; 268bi

      2014: 20,5bi; 6,35%; 308bi (em 2014 os dados são dos 2 ultimos trimestres de 2013 e os dois primeiros de 2014 pois o balanço do 3 tri de 2014 ainda não saiu).

      Ou seja, pelo números ficam claríssmo que os fundamentos PIORARAM. Para termos una noção vamos pegar os números de 2003:

      2003: lucro: 17,8bi: margem: 18,6%; dívidda: 42bi

      De 2003 até 2010 os fumdanemtos melhoraram, por isso a cotação subiu, coisa absolutamente normal, no longo prazo. De 2010 a 2014 os fundamentos pioraram e a cotação caiu, coisa também normal, no longo prazo.

      A receita aumentou, mas os lucros cairam porque a margem caiu, houve perda de rentabilidade, de eficiência.

      Fatores que ajudaram essa piora de fundamentos e consequente queda das ações:

      1) Capitalização da empresa, em 2010, que aumentou o número de ações sem aumentar o lucro. Talvez necessária, mas que prejudicou no longo prazo.

      2) Aumento do endividamento por necessidade de investimentos. Necessário, porém o retorno pode ser demorado e o custo do endividamento pode sair do controle.

      3) Sangria do caixa pela venda com prejuizo de combustíveis por 2 ou 3 anos, para mim o pior ponto. Totalmente desnecessário e absurdo.

      4) Não entrega do balanço no 3 trimestre de 2014 agora, coisa também absurda, que tira credibilidade da empresa. Absurdo.

      5) Paralisia de obras e falta de pagamentos a fornecedores, o que geram enormes incertezas futuras. Erro tremendo, e ai entrem na jogada MP, judiciário, TCU, CGU e Governo. Precisa se entender, para o bem do País e resolverem a situação.

      A despeito de todos os problemas não há catastrofismo, vamos olhar para o futuro. O que o Governo e a empresa poderia fazer para melhorar e muito a situação:

      1) Dar aumento aos combustíveis na Petrobrás ao inveés de aumentar a CIDE.

      2) Entrar em acordo com MP, judiciário, TCU, CGU, Governo para que obras não parem de jeito algum e fornecedores não sejam prejudicados. Isso requer forte e enérgica ações políticas e midiáticas do Governo explicando que o custo de se parar obras e o pagamento de fornecedores é muitas vezes maior do que o de possíveis corrupções.

      É preciso agir, e rápido, porque há problemas reais, não vamos nos iludir”.

  2. Mourão disse:

    Valeu Senador, resposta convincente. Tirou de letra!

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