A Ditabranda e o relatório da Comissão Nacional da Verdade

Eu sei que o assunto já se tornou velho, mas a apresentação do relatório da Comissão Nacional da Verdade acaba por me dar a oportunidade de revisitar uma das maiores polêmicas jornalísticas dos últimos anos.

Foi em 17 de fevereiro de 2009 que a Folha de São Paulo lançou um editorial para criticar a estratégia de Hugo Chávez de reciclar maiorias eleitorais na forma de plebiscitos para permitir a reescrita infinita da constituição venezuelana. A idéia do texto era demonstrar que, comparada com o regime militar de 1964, a ditadura chavista era muito pior. Para resumir as diferenças entre um e outro modo de governar, o editor do texto recorreu a um trocadilho: “Ditabranda”.

Não que o termo fosse exatamente novo. Há pelo menos dois precedentes históricos nos quais se tentou minimizar a cassação do regime de liberdades pela ditadura de plantão.

Em 1930, o General Dámaso Berenguer substituiu o General Primo de Rivera à frente do governo ditatorial espanhol. Berenguer governou à sua maneira, buscando medidas que diminuíssem a tentação popular após o crash de 1929 e a derrocada da monarquia espanhola. Para explicar seu modo de governar, referiu-se a ele como dictablanda. Como resultado, saiu do cargo tendo executado mais sentenças de morte por motivos políticos do que o ditador que o precedera.

A segunda vez em que um ditador recorreu à dictablanda foi em 1983. Pinochet mandava – e, sobretudo, desmandava – no Chile. Aos críticos do regime, dizia que havia relativo respeito às garantias individuais (contanto que não se fizesse oposição a ele) e assegurava-se a liberdade econômica.

Provavelmente “inspirada” nesses precedentes históricos, a Folha de São Paulo apenas se limitou a traduzir a expressão para o português e empregá-la na sua comparação entre a ditadura militar brasileira e o regime chavista.

No dia seguinte, o mundo caiu sobre a Folha de São Paulo. Cartas foram escritas à redação por figuras de peso, como Fábio Konder Comparato, criticando o uso do termo. 300 manifestantes foram à redação do jornal fazer um protesto contra o editorial. No meio de tudo isso, houve gente que até encontrou um modo de ironizar o editorial fazendo piada:

Ditabranda

Não que os protestos tenham sido imerecidos. Muito pelo contrário. A questão é que, pelo menos sob o ponto de vista deste que vos escreve, as críticas vieram pelo lado errado. Ou, por outro lado, criticou-se a consequência e não o erro. Na verdade, o problema da utilização do termo ditabranda não esteve na tentativa de “desmerecimento” da ditadura brasileira frente ao governo chavista, mas na admissão implícita de que é possível estabelecer graus de maldade para regimes que perseguem seus concidadãos.

Em um jogo de futebol, por exemplo, pode-se dizer – como o fez o porta-voz israelense – que perder de 7×1 é pior do que perder de 1×0. Embora nos dois casos o resultado final seja o mesmo (a derrota), uma goleada tão elástica expõe de maneira incontornável a desproporção de qualidade entre os times e o tamanho do massacre que foi imposto ao adversário. Mas quando a discussão gira em torno de perseguição política, um regime é melhor do que o outro em relação a quê?

O raciocínio enviesado que entende possível estabelecer parâmetros de comparação entre regimes ditatoriais esconde por trás um argumento torpe segundo o qual, a depender da quantidade de gente morta e perseguida, pode-se dizer que um regime totalitário foi menos traumático do que outro. Seria possível, no limite, dizer que o regime nazista foi melhor do que o soviético, porque, enquanto o primeiro matou cerca de 7 milhões de pessoas, o último chacinou cinco vezes mais do que isso.

A despeito de a Folha ter se desculpado publicamente depois pelo malfadado editorial, o relatório da Comissão Nacional da Verdade enterra de vez a discussão. Nele, está exposta de maneira incontestável a crueldade do regime que marcou tragicamente a história brasileira. Formas abomináveis de tortura se somaram à maldade pura e simples para compor um cenário de horror que faria corar qualquer pessoa com um mínimo de decência. Diante dele, toda tentativa de mitigar os crimes cometidos pela ditadura militar será encarada como deve ser: um mero exercício de imbecilidade.

Que o país saiba usá-lo para que episódios como esse não voltem jamais a se repetir.

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4 respostas para A Ditabranda e o relatório da Comissão Nacional da Verdade

  1. K disse:

    Como você bem disse, meu amigo, é fundamental que o tempo não coloque no esquecimento as lições que a história nos ensina. Conhecer a história e ter memória: essa é também uma lição que todos temos que aprender de uma vez por todas. Ótimo texto!
    K

  2. tai777 disse:

    É por isso que admiro tanto o Fábio Konder Comparato! É um referencial para mim – pioneiro na luta pelos direitos culturais.

    • arthurmaximus disse:

      Ele é um gênio, Taiguara. Apesar de não concordar com vários pontos de vista dele, não há dúvida nenhuma de que é um democrata convicto. Só por isso já teria meu respeito. Um abraço.

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