O autismo eleitoral, ou As questões que deveriam ser tratadas na eleição

No script projetado por quem teve a primeira idéia de organizar a democracia através do voto popular, as eleições deveriam cumprir o papel de uma grande DR (gíria para “discutir relação”) entre o povo e os candidatos. “Como estamos?”, “O que está ruim?”, “O que pode melhorar?” e “Como se vai fazer para chegar lá?” deveriam ser as perguntas primordiais a envolver o debate eleitoral.

Infelizmente, aqui no Brasil, essa bela intenção ficou pelo caminho. Desde que Fernando Collor de Mello resolveu pagar a uma ex-namorada de Lula para declarar em rede nacional que ele tentara convencê-la a abortar o filho, o vale-tudo passou a ditar a tônica nos períodos eleitorais. Já vimos Serra detonando Ciro Gomes, Alckmin perguntando a Lula de onde viera o dinheiro dos aloprados e, agora, vemos Dilma acusando Marina de defender a independência do Banco Central para “tirar a comida do prato dos pobres”.

Pode parecer que “faz parte”, mas a última coisa que o brasileiro deveria querer ver no horário eleitoral gratuito e nos debates eleitorais era esse festival de baixarias, cuja diferença repousa apenas no nível de cinismo do candidato. A desconexão das eleições do mundo real acaba por encapsular os candidatos nos seus próprios mundinhos fechados. Assim, tudo se resume à busca do próximo deslize a favorecer a tarefa de “desconstrução” do adversário.

Enquanto isso, no meio desse autismo programado, problemas reais e urgentes do dia-a-dia acabam sendo relegados a décimo quinto plano. E, dentre eles, nenhum é mais atual e premente do que o problema da água no Brasil.

Como todo mundo sabe, o país enfrenta uma severa seca. Antes restrita ao pobre Nordeste, agora a seca resolveu dar o ar da graça no Sudeste. Hoje, a terceira maior metrópole do mundo enfrenta o risco bem real de sofrer um colapso total de abastecimento. A coisa anda tão feia que até mesmo a nascente do rio São Francisco, o maior rio que começa e acaba no Brasil, secou.

Ouvidas, as autoridades recitam o papel de sempre. No governo paulista, por exemplo, é proibido falar em racionamento, mesmo com o principal reservatório do sistema ostentando um nível atual de -18%, se formos considerar o uso do volume morto (cujo nome atucanado resultou em “reserva técnica”). No governo federal, por sua vez, racionar é verbo do tempo de Fernando Henrique Cardoso. “Estamos seguros”, afirmam as autoridades, mesmo com diversas hidrelétricas tendo de diminuir sua vazão para fazer frente à estiagem.

Seja qual for a esfera de governo, o problema da água sempre é associado a crises pontuais. “Trata-se de uma seca atípica”, dizem uns. “É a maior seca dos últimos 3741 anos”, dizem outros. Não importa o nível de criticidade do sistema. Tudo vai se resolver daqui a alguns meses, “quando voltar a chover”. Todo mundo cuida do seu mundinho particular sem se dar conta de uma dúvida fundamental: e se não voltar a chover?

Todos os políticos, de todos os partidos, em todos os cenários, partem da premissa equivocada de que a seca pela qual estamos passando é resultado de algum fenômeno climático atípico. Como o cometa Halley, coisas assim só ocorreriam de século em século. E, assim como o corpo estelar cuja cauda a todos impressiona, estaria destinado a passar, como a última chuva de verão.

O buraco, contudo, parece ser muito mais embaixo. O que o Brasil está vivendo é resultado direto de mudanças climáticas que atingem todo o mundo. Tudo leva a crer que não se está diante de somente uma conjunção astral desfavorável, mas de algo que veio pra ficar. Não é que falta de água agora seja anormal. Pouca chuva no Sudeste e menos ainda no Nordeste pode ser, a partir de agora, o nosso “normal”.

Diante desse cenário a um só tempo desolador e arrepiante (no mau sentido), nenhum dos senhores candidatos dignou-se a pautar o debate. Nem mesmo Marina Silva, que fez sua carreira defendendo a ecologia, arrisca-se agora a trazer a questão à tona. Depois de ver sua proposta de diversificar a matriz energética brasileira ser transformada na tentativa de “tirar R$ 1,3 trilhão da educação e da saúde”, Marina virou o disco e foi discutir etanol com os usineiros. Logo eles, que jogam muito mais CO2 na atmosfera com suas queimadas do que retiram com a substituição da gasolina pelo álcool.

A verdade é que, no meio do esgoto no qual se transformou a disputa presidencial, a discussão para solucionar os reais problemas do Brasil está indo por água abaixo. Quando os eleitores despertarem pra esse problema, talvez já seja tarde demais.

Para quem quiser entender melhor o problema, aconselho essa entrevista com o ambientalista Mário Montavani, da ONG SOS Mata Atlântica. Vale a pena dispensar um naco do seu tempo lendo-a.

Esse post foi publicado em Política nacional e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.