O Universo precisa de Deus?, ou Não será a Ciência uma forma de crença?

Hoje recebi um email do meu dileto ACN a respeito de um artigo publicado por João Pereira Coutinho, um cientista político português que escreve para a Folha de São Paulo. No artigo, Coutinho dedica-se a demonstrar a irracionalidade presente na última declaração de Stephen Hawking sobre o velho embate entre Deus e Ciência. Para o físico inglês, é apenas uma questão de tempo até que o homem passe a conhecer “tudo sobre tudo no futuro, sem precisar de uma ajuda celestial”.

No fundo, a questão nem nova é. Para os cientistas propagadores do ateísmo, o Universo simplesmente “não precisa de Deus”. Isso significa dizer, em outras palavras, que todas as leis do Cosmos e tudo o que nos cerca derivam de uma conjunção aleatória de eventos atribuídos ao acaso. Por isso mesmo, não seria necessário um ser superior a governar os desígnios do Universo.

Que a declaração de Hawking é de uma assustadora presunção, ninguém discute. Afinal, mesmo para os cientistas mais renomados, predizer o futuro sempre foi exercício de charlatanismo. As variáveis envolvidas no desenvolvimento de fatos e eventos simplesmente não cabem em qualquer teoria que se possa imaginar. Se por um lado os cientistas acusam de irracionais aqueles que sujeitam seu destino ao governo de uma entidade superior, defender que a Ciência possa encapsular o futuro em algum modelo matemático encerra um irracionalismo ainda maior.

Mas minha questão aqui não é essa. Não quero aqui voltar à mesma tecla que repisei por mais de uma vez desde que o Dando a cara a tapa veio ao mundo. Interessa-me, na verdade, discutir outra coisa, que sempre se encontra latente quando esse tipo de controvérsia vem à tona: até que ponto o exercício e as práticas científicas não representam também uma forma de crença?

Tem-se por certo, por exemplo, que o Universo tem aproximadamente 13,7 bilhões de anos. A estimativa é projetada com base na velocidade de decaimento radioativo de determinados átomos, como o rênio e o urânio. Mas ninguém pode ter a comprovação científica da idade do Universo pelo simples fato de que não é possível observar o instante inicial em que tudo começou: o Big Bang. O melhor que se conseguiu até hoje foi uma “fotografia” do Cosmos com “apenas” 370 mil anos. Além disso, é simplesmente impossível “enxergar” o que houve antes.

E daí?

Daí que, para se firmar a idade do Universo como 13,7 bilhões de anos, deve-se “acreditar” – sim, exatamente, professar uma fé – de que, além desse limite de observação, tudo o que aconteceu antes obedece às mesmas regras aplicáveis ao que aconteceu depois. Do ponto de vista puramente teórico, portanto, nada garante que essa seja a idade do Universo. Não há como comprovar cientificamente, à margem de qualquer dúvida, tal fato.

 Isso não é tudo.Dá-se de barato, também, que toda a matéria hoje existente no Cosmos deriva de uma sopa primordial de partículas, condensadas em um único ponto superquente. No entanto, surge a questão: de onde veio esse ponto inicial? Ou, de maneira mais clara, de onde surgiu a matéria que o constituiu?

Para parcela dos cientistas, mais radical, o Universo surgiu do nada. Falta explicar como isso seria possível sem quebrar uma das leis mais fundamentais da Natureza: a conservação das massas (ou da energia, lembrando que, desde que Einstein definiu a equivalência entra uma e outra, essa discussão tornou-se inútil).

Outra parcela credita a existência do nosso Universo a uma superposição de outros universos, cada qual formando um todo particular, imiscível com o nosso. Se por um lado isso explica a origem da matéria e do próprio Big Bang, por outro não resolve nada. O problema apenas muda de lugar: e o que formou esse composto exótico de Multiversos?

Tanto uma como outra hipótese encerram um problema insolúvel: nenhuma delas pode ser aferida de acordo com o método científico. Ou seja: nem o “Universo a partir do nada” nem o “Multiverso” podem ser comprovados ou mesmo observados pela nossa ciência. Logo, para defender uma ou outra alternativa, é necessário uma grande dose de crença naquilo que não pode ser provado. Desse modo, conclui-se que, pretendo-se racional, a Ciência termina vitimada pelo mesmo mal que ela acusa a Religião de possuir: a fé.

O difícil é convencer os cientistas a acreditar nisso.

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6 respostas para O Universo precisa de Deus?, ou Não será a Ciência uma forma de crença?

  1. rodriguesjr disse:

    uma pequena explicação de Neil Degresse Tyson sobre o Big Bang

  2. rodriguesjr disse:

    eu acredito que a posição de Hawking é também politica. os religiosos andam tomando espaços políticos, não só no Brasil, mas em países como Estados Unidos, Portugal, etc, e tentam transformar em leis dogmas que deveriam ser restritos aos seus respectivos ambientes. exemplos são vários: criminalizar o aborto, não aprovar direitos ou pesquisas (LGBTS, células tronco), etc. fora que, se acompanharmos a evolução da ciência, veremos que assuntos antes desconhecidos hoje são plenamente explicáveis como a genética, as leis físicas do universo, etc. então afirmar que um dia a ciência irá explicar fatos hoje desconhecidos é apenas uma constatação. claro que uma teoria do tudo, ou uma teoria unificada, é uma ideia que está perdendo força, mas já que a ciência explica as próprias teoria através de constatações, já que está sempre atrás de novas tecnologias para explicar novas teorias (vide o casamento entre física teórica e física de laboratório) enquanto a religião sempre explica seus dogmas por idéias não mensuráveis/contestáveis/pesquisáveis. e quando não consegue criar uma idéia que explique o dogma apela para a fé enquanto a ciência apela para a critica/contestação dos demais membros, mesmo que tais criticas/contestações firam o ego do autor da teoria.

    • arthurmaximus disse:

      É uma teoria, Rômulo. No caso do Hawking, ainda que tenha sido essa a intenção, ele no mínimo foi infeliz na declaração. Reforço, no entanto, que há muito de profissão de fé em boa parte do que os cientistas – físicos em especial – fazem. De todo modo, eu continuo acreditando que a Ciência não será capaz de explicar todas as coisas, muito menos de predizer o futuro. Um abraço.

  3. rodriguesjr disse:

    eu queria entender porque quando alguém do status e nível do Hawking faz uma declaração dessa o mundo estremece, as pessoas dizem que ele não pode afirmar isso, que é uma declaração infeliz, etc. pelo fato de ele ser famoso e popular ele não pode afirmar que deus não existe? os papas são tão famosos quanto e podem afirmar que deus existe mesmo sabendo que que meio mundo não professa a fé cristã. e aí? vai deixar de divulgar a crença por conta? os cristão podem alardear que jeová é o único deus verdadeiro independente das sensibilidades de outras crenças, mas hawking não pode afirmar que deus não existe?
    PS: post publicado com a unica intenção de manter o assunto aceso. afinal, religião, politica e futebol devem sim ser debatidos para forçar o livre pensamento de todos os envolvidos. afinal, foi-se a época que terminavamos um assunto com o famoso argumento: porque sim (porque não).

    • arthurmaximus disse:

      O problema não é dizer que Deus não existe, Rômulo. A questão é o sujeito dizer que, daqui a não muito tempo, a Ciência será capaz de predizer o futuro. Imaginar que seja possível estabelecer um modelo astrofísico ou matemático segundo o qual todos os acontecimentos do porvir podem ser previstos a partir de uma fórmula é algo, no mínimo, discutível. Como já escrevi aqui mais de uma vez, a vida – havendo ou não Deus – está sujeita a uma série de variáveis que nem os analistas nem muito menos os cientistas dominam. É difícil acreditar que esse postulado venha a ser quebrado algum dia. Um abraço.

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