Interlúdio pessoal, ou Uma reflexão sobre a vida

Quem estuda Internet me diz que o termo “Blog” nasceu para dar sentido informático aos famosos diários. Seja em sua versão feminina – objeto de curiosidade de todo adolescente -, seja em sua versão masculina – quase inexistente -, o diário serve para registrar fatos cotidianos. Coisas desimportantes, como quem você encontrou, ou uma piada da qual riu, acabam invariavelmente se perdendo nos desvãos da memória. Por isso mesmo, o diário é fundamentalmente uma arma contra o esquecimento.

Neste espaço, por minha própria vocação pessoal, o propósito do Blog desde sempre foi desvirtuado. Não se encontrarão aqui quaisquer referências pessoais do que fiz ou do que farei, senão para relatar um ou outro episódio banal de muito tempo atrás. Ainda que se possa dizer que, escrevendo, digo muito do que sou e do que penso, será difícil para quem não me conhece pessoalmente entender muito daquilo que se publica por aqui.

Hoje, no entanto, para sair da asséptica impessoalidade que virou marca registrada do Dando a cara a tapa, relatarei uma experiência pessoal pela qual passei, em um passado não tão distante assim.

Era dia de júri, numa pequena cidade perdida no interior do Nordeste. Lá cheguei, cedo, para acompanhar o julgamento de um réu acusado de um crime assombroso, mas nem por isso incomum. Segundo a denúncia, o sujeito vivia maritalmente com uma mulher, que já tinha quatro filhos. Depois de muitas brigas, a vítima resolveu colocar um fim no relacionamento. Foi o suficiente para despertar a fúria do réu.

Certo dia, depois de entornar muita cachaça, o réu foi à casa da vítima. Já era alta madrugada. Bateu insistentemente na porta, para que a mulher a abrisse. Como ela se recusasse, arrombou-a. Com uma peixeira, desferiu quatro facadas fundas na ex-companheira. Tudo isso às vistas do filho maior da vítima, com apenas 10 anos de idade. Enquanto a mãe agonizava, o filho tentava consolá-la: “Calma, mãe, vou te levar pra tomar banho e tirar esse sangue”.

Vizinhos da mulher ouviram toda a confusão. Quando eles chegaram, o réu fugiu para os matos. Obviamente, o socorro não chegou a tempo. A vítima veio a falecer poucos minutos depois dos golpes de faca. O choque coletivo foi inevitável. Como poderia um crime tão bárbaro acontecer naquela vizinhança? Depois de três anos de fuga e uma temporada numa penitenciária de São Paulo, onde fora se esconder, o réu foi preso e levado a júri.

E lá estava eu, no fatídico dia do julgamento do sujeito. Como toda pessoa normal, cheguei lá com sangue nos olhos: o cara é um monstro, um facínora, um escroque. Tem mais é que ser condenado e apodrecer na cadeia. Se colocarem na ficha dele que também é estuprador, tanto melhor; o sofrimento na cana dura será maior.

Não se trata, claro, de uma reação puramente racional. Há muito de primitivo nesta sede íntima de vingança. Será que damos a esse sentimento o nome de “Justiça” para melhor passar? É bem capaz.

Tudo mudou, no entanto, quando eu vi o réu entrar no plenário do júri. Quando a gente pensa em um crime desses, logo imagina aquela figura típica do bandido: cicatriz no rosto, barba por fazer, a cara de mau estampada no semblante. Felizmente (ou infelizmente), não vi nada disso. Era um agricultor, mulato, dos seus 40 e tantos anos de idade. Estatura baixa, gordinho, de gestos tão curtos quanto provavelmente foi sua educação. Trazia as mãos apertadas atrás das costas, como se ainda portasse algemas, embora tivesse as mãos livres. Cabisbaixo entrou, cabisbaixo sentou-se no banco dos réus.

A partir daí, o suplício. Testemunha após testemunha, o mundo caía sobre as costas do réu. A narrativa era tão absurdamente clara que não havia como contestá-la. Tanto era assim que nem o advogado de defesa pedia a absolvição dele. Limitava-se a suplicar dos jurados a retirada da qualificadora do motivo fútil, o que reduziria sua pena do intervalo de 12 a 30 para de 6 a 20 anos.

 No seu interrogatório, a dificuldade de articulação das palavras e do raciocínio denunciavam a origem humilde do sujeito. O arrependimento pelo crime podia não ser inteiramente sincero, mas o relato das dificuldades pelas quais passou na prisão o eram. Não, não havia ali um monstro. Somente um pobre diabo, para quem a vida apresentou-se menos como mãe e mais como madrasta. O ranço vingador que eu exibia ao entrar no recinto pouco a pouco deu lugar a um estranho sentimento de compaixão.

Por alguns dias, essa sensação me inquietou. Não é todo dia que passamos do ódio à compreensão em tão pouco tempo. Mas o que mais me assombrou foi o conflito interno entre a razão – que insistia em me recordar do delito e denunciar o ultraje à vida alheia – e a emoção – que me impedia de transformar o pleno entendimento daquele crime bárbaro em motivo de vingança.

Dormi mal algumas noites pensando naquele caso, até que me veio um pensamento e, com ele, uma súbita sensação de alívio. Como todas as máximas, também esta pode ser tirada daqui e inserida nos compêndios de escola. A máxima é esta: a vida não é constituída de pretos e brancos, certos e errados, ódios e amores. No meio de tudo isto, há uma imensa variedade de tons que você não consegue enxergar senão quando a idade começa a se transformar em experiência. Daí pra frente, cabe a você decidir se quer enxergar a vida como ela é ou se pretende reduzi-la a extremos, através dos quais nenhuma felicidade é possível.

Boa reflexão a todos.

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