Pois é, minha gente. Quando todo mundo achava que o xadrez político da eleição estava dado, eis que o acaso resolve tragicamente mostrar o seu poder frente à irrelevância das nossas análises. Parece ironia do destino, mas justamente quando dois dias antes resolvi escrever um post sobre o cenário político para o ano que vem, o desastre aéreo que ceifou a vida de Eduardo Campos no auge dos seus 49 anos trouxe-me à realidade já alertada aqui no ano passado.
Nessa altura do campeonato, escrever qualquer prognóstico sobre o pleito de outubro tornou-se um exercício de frivolidade. Não só porque o destino mostrou seu total desprezo às nossas frágeis expectativas para o futuro, mas também porque trocar o réquiem pelo vaticínio desrespeitaria o morto recém-sepultado. Interessa, contudo, analisar, para além das paixões políticas, o que o Brasil perdeu com a morte de Eduardo Campos.
Em primeiro lugar, o Brasil perdeu a primeira grande alternativa de rompimento à polarização PT-PSDB. Assim como Ciro Gomes em 1998 e Marina Silva em 2010, Campos disputava esta eleição pensando na próxima. À diferença dos dois, no entanto, Campos tinha uma capacidade de agregação sem paralelo em políticos da sua idade. Enquanto Ciro e Marina disputavam apenas para “marcar posição”, Eduardo queria mais: queria estabelecer as bases políticas para disputar pra valer em 2018.
Em segundo lugar, o Brasil perdeu uma grande liderança política emergente. Em um país no qual os grandes líderes nunca foram matéria-prima farta, Campos surgia como uma alternativa capaz de projetar o futuro sem renegar o passado, hábito que tanto PT quanto PSDB cultivam. Passando a classe política numa peneira, hoje não sobrariam mais do que dois grandes líderes: Lula (PT) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Além da idade – Lula está chegando aos 70 e FHC já passou dos 80 -, pesa contra ambos o fato de serem a encarnação mais perfeita do Fla x Flu político no qual o país se meteu desde 1994.
Em terceiro lugar, o Brasil perde a primeira grande chance de deixar pra trás a disputa ideológica do pós-ditadura. De Ulysses Guimarães a Brizola, de Fernando Henrique a Lula, todas as lideranças políticas de projeção forjaram-se no embate político contra o governo dos militares. Basta olhar ao redor. Dilma lutou na VAR-Palmares. Aécio é neto de Tancredo Neves, artífice da transição democrática. Seu vice, Aloysio Nunes Ferreira, foi distinto membro da ALN. Some-se a estes Serra, Suplicy, Maluf, Dirceu, Genoino, Gabeira e um sem-número de etc. e chega-se à conclusão de que as maiores figuras políticas do nosso tempo ainda vivem sob o espectro de um mundo que não existe mais. Como Campos mesmo gostava de repetir, nascera em 1965, já depois do golpe efetivado. Com 20 anos, o último general-presidente estava saindo pela porta dos fundos da história. Sua virtual eleição poderia contribuir para que o Brasil pudesse, finalmente, superar o trauma do golpe de 64.
De todas as lamentações, nenhuma é maior do que a perda de uma liderança política tão promissora com menos de 50 anos de idade. Pode parecer banal, mas lideranças políticas não surgem do nada. Forjam-se com experiência parlamentar e administrativa, coisa que, como quase todas as outras na vida, só vem com o tempo. Qual político hoje tem chance de reunir 10 anos de mandato parlamentar e 8 anos de governo estadual antes de completar 50 anos?
Fora isso, há ainda de se contar com a sorte. É dizer: o sujeito pode até conseguir cabalar votos para adquirir experiência política suficiente que lhe credencie ao mais alto posto do país, mas, por mal dos azares, ele pode se perder pelo caminho. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Ciro Gomes. Prefeito mais jovem da história de Fortaleza, governador mais jovem do Estado do Ceará, Ciro já foi tudo: de deputado estadual a ministro da Fazenda. Mesmo assim, seu temperamento explosivo e sua língua descontrolada detonaram suas chances de um dia vir a ser Presidente da República.
Oposto de Ciro, Eduardo Campos era um sujeito amável no trato e cortês no enfrentamento. Poucos questionavam sua capacidade gerencial e quase ninguém contestava sua habilidade política. Ariano Suassuna, morto há menos de um mês, declarou em vida que Eduardo era o maior político que jamais tinha visto. O próprio Lula tinha-o como um “filho adotivo político”, sucessor natural da sua cadeira, caso o PT não conseguisse viabilizar uma candidatura competitiva para substituir Dilma Roussef em 2018. Tudo isso foi abortado pelo acidente da semana passada.
Mas, mais do que a morte do político, deve-se lamentar a morte da figura humana. Disputas políticas à parte, não há como não se comover com a perda de um pai de cinco filhos, o mais novo com menos de 6 meses, no auge da carreira, tendo o futuro pela frente e o céu como limite.
A Renata e os seus filhos, os mais profundos pesares deste pequeno espaço da Internet.