Até parece filme de terror. Manchetes nos jornais, cenas de corpos passando na TV, mundo aflito… O novo surto de ebola na África despertou uma onda de medo sem paralelo na história recente da humanidade. A cada nova morte, a cada nova localidade em que a doença é identificada, a sensação de que o planeta está prestes a passar por uma pandemia semelhante à peste negra ou à gripe espanhola se espalha. E, com ela, um arrepio perpassa quase despretensiosamente a espinha do telespectador.
A questão, contudo, é: há razão para tanto pânico?
Em princípio, não.
Do ponto de vista histórico, o atual surto de Ebola não é muito diferente dos ocorridos há algumas décadas. Aliás, a regularidade suíça com que o vírus se transforma em epidemia é algo realmente assombroso. É como se houvesse um acordo com a natureza: a cada 20 anos, detona-se um novo surto da doença. Todavia, nas epidemias de 1976 e de 1996, o medo inicial de que o vírus se espalhasse e ocasionasse mortalidade em massa foi logo superado depois de alguns meses, quando o número de casos voltou a cair.
Do ponto de vista prático, a capacidade de o ebola se espalhar pelo mundo é limitada justamente por aquilo que ele tem de mais assustador: a alta letalidade do vírus. Como os cientistas militares envolvidos no desenvolvimento de armas biológicas descobriram há muito tempo, não há como produzir um organismo a um só tempo letal e de alta capacidade de contágio. Ou o vírus mata logo o hospedeiro e, vitimando-o, limita sua capacidade de difusão; ou ele não mata logo o hospedeiro, e tem mais tempo para se espalhar para outras vítimas.
Além dessas características naturais, há de observar o alto grau de mortalidade do ebola com grão de sal. Afinal, a quase totalidade das vítimas encontra-se em regiões pobres. Não bastasse os problemas de nutrição, as localidades do interior africano são inteiramente desprovidas dos equipamentos mais básicos de higiene. Pior que isso, só mesmo a virtual inexistência de hospitais de ponta, aptos a lidar com semelhante ameaça. Eis as razões pelas quais um vírus que não tem a habilidade de se espalhar pelo ar consegue atingir tanta gente em tão pouco espaço de tempo.
A diferença na capacidade de enfrentamento do surto pôde ser comprovada recentemente quando dois médicos americanos descobriram-se contaminados pelo ebola. Ambos foram transportados para os Estados Unidos, foram medicados e passam bem. Melhor ainda: ninguém chegou a se contaminar depois que o vírus desembarcou na América, exatamente por conta das medidas de segurança tomadas pelas autoridades médicas.
Na verdade, muito do medo que o ebola inspira deriva justamente disso: todo mundo ignora as más condições sanitárias africanas. Para boa parte do planeta, dane-se o que que acontece na África. Foi só quando o vírus ameaçou atravessar o Atlântico que começaram a falar a sério no desenvolvimento de uma vacina contra a doença.
A grande lição que deveria ficar do mais novo surto de ebola, portanto, deveria ser que o mundo deve olhar com mais atenção para a África. Assim como a Mãe Natureza, o Grande Continente Africano não reclama. Ele apenas se vinga.