O Monte do Templo

Os recentes acontecimentos do cenário religioso e político oferecem-me o mote para falar de uma das coisas mais faladas e mais mal explicadas de todos os tempos: o Templo de Jerusalém.

Como todo mundo sabe, Jerusalém foi – e ainda é – uma das cidades mais importantes do mundo. Pouco por sua geografia, menos por suas belezas naturais e mais, muito mais, por conta de seu interesse religioso. Nenhum lugar do planeta reúne tanto interesse em um único ponto do mapa. Ali estão monumentos e referências sagradas às três principais religiões monoteístas da humanidade: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

Pior do que a divergência entre religiões cujos adeptos pouco concordam entre si (para dizer o mínimo), as três profissões monoteístas compartilham vários sítios com referências idênticas, embora a importância seja maior ou menor conforme a religião. Nesse sentido, nenhum lugar é mais simbólico e conflituoso do que o Monte do Templo.

De acordo com a tradição judaica, Abraão ofereceu seu filho Isac em sacrifício no alto do Monte Moriá, uma elevação situada a leste de Jerusalém. Por essa razão, numa pedra na qual se acredita que a cena tenha se passado, Salomão resolveu construir um edifício monumental em homenagem a Javé. Nascia, então, o Templo de Jerusalém, ou, como ficaria mais conhecido, o Templo de Salomão.

Templo de Salomão

Na parte mais sagrada do edifício, reza a lenda que os judeus depositaram a Arca da Aliança, as Tábuas dos Dez Mandamentos, alguns potes com maná, e o famoso cajado de Abraão, como reminiscências de sua ligação com Deus.

Segundo os cálculos dos historiadores, a inauguração do Templo teria ocorrido ao redor do ano 1.000 a.C. No entanto, pouco tempo depois, Israel seria invadido pela Babilônia. Com isso, Nabucodonossor II mandou levar o edifício abaixo, levando consigo a população refém, no episódio que passaria para a história como o “cativeiro da Babilônia”.

Aproximadamente meio milênio depois, Ciro, Imperador da Pérsia, invade da Babilônia. Com a tomada de território, liberta os judeus e permite que eles retornem à sua terra sagrada. Mais do que isso. Em ato de suprema benevolência, ordena a recriação do edifício mais importante para os hebreus. Seria erguido, pois, o Segundo Templo.

Segundo Templo

Por outra metade de milênio, as coisas se passaram relativamente bem na Terra Santa. No entanto, tudo começou a mudar quando os romanos invadiram a região. Herodes, governador da Judéia por designação de César, ordenou a reconstrução do edifício, com o propósito de que se assemelhasse a uma construção romana. Muitos judeus ficaram fulos da vida, compreendendo o ato como uma profanação do templo.

Mas o pior estava por vir. Depois da grande revolta judaica do ano 70 da Era Cristã, os romanos perderam a paciência com os judeus. Destruíram Jerusalém e espalharam os judeus pelo mundo, de modo a que não arrumassem mais encrencas. Do Segundo Templo, só restaria a muralha ocidental. E são justamente os restos dessa construção que compõem o cenário mais importante para a religião judia: o Muro das Lamentações.

Muro das Lamentações

Não é difícil, portanto, entender porque o Muro e o Monte no qual ele se situa são tão importantes para o judaísmo.

Para o cristianismo, contudo, a importância não é lá muito grande. Boa parte das referências à vida de Jesus se passa longe daquela área. Há, claro, a inevitável conexão com as figuras do Antigo Testamento, mas a área do Monte do Templo está longe de ser a mais importante para a fé cristã.

Para os muçulmanos, no entanto, a coisa fica mais complicada. Além da referência comum a Abraão e Ismael – filho de seu relacionamento com a escrava Agar, do qual, reza a lenda, deriva o povo islâmico -, há muitos outros acontecimentos ocorridos no Monte do Templo que justificam o título de “terceiro lugar mais sagrado para o islamismo”.

Em primeiro lugar, é lá que se situa a Mesquita de Al-Aqsa, erguida no local onde se supõe que Maomé teria conversado com Moisés e com o próprio Deus (Allah). Em segundo lugar, é lá onde se situa o Domo da Rocha, nome popular da Mesquita de Omar, local no qual estaria a pedra utilizada como altar de sacrifício por Abraão e, segundo diz a lenda, Maomé teria ascendido aos céus. Por isso mesmo, o local só perde em importância para Meca e Medina na religião islâmica.

Mesquita de Al-Aqsa

Domo da Rocha

Com tantas coisa importantes juntinhas umas das outras, não é difícil entender o tamanho da briga entre judeus e muçulmanos sobre o controle da área.

Do lado palestino, os árabes reivindicam a posse da área oriental de Jerusalém, que englobaria a parte alta do Monte, hoje chamada de Esplanada das Mesquitas. Do lado israelita, a idéia de alguns é reconstruir o edifício de Salomão, chamando-o agora de Terceiro Templo. Ou seja: muito sangue vai rolar até que palestinos e israelenses se dêem conta de que estão condenados a viver juntos.

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