O efeito da Copa nas eleições

Depois da ressaca de anteontem, todo mundo voltou à realidade. E, para aqueles mais ligados ao noticiário político, a pergunta é uma só: qual será o impacto da Copa e da derrota do Brasil nas eleições deste ano?

Do ponto de vista histórico, a associação entre Copa do Mundo e política sempre foi algo duvidoso. Ficou famosa a lenda segundo a qual todos os militantes esquerdistas torceram contra a seleção de 70, pois o êxito do escrete canarinho turbinaria as chances eleitorais da ditadura nas eleições do final do ano. Quando as urnas foram abertas, houve um massacre semelhante ao jogo Brasil x Alemanha. Das 310 vagas para deputado em disputa, a Arena (o partido dos generais) levara 223. No Senado, a surra foi ainda maior: 40 x 5 contra o MDB.

Na eleição seguinte, em 1974, produziu-se o inverso. O MDB foi à forra e conquistou 161 cadeiras na Câmara. No Senado, o partido de oposição levou 16 das 22 cadeiras em disputa, tornando-se uma ameaça real à estabilidade parlamentar pretendida pelo governo dos generais.

Obviamente, houve quem associasse o desastre político à queda da seleção nas semifinais da Copa da Alemanha para a Holanda de Cruyff. Para essa corrente, assim como a Copa funcionara como remédio em 70, havia se convertido em veneno em 74, dinamitando o projeto do “Brasil Grande”.

Essa correlação imediata entre política e futebol, contudo, é de duvidosa exatidão.

Da mesma forma que era ingênuo pensar que Pelé, Tostão e Gérson poderiam funcionar como cabos eleitorais de Médici e cia., seria igualmente ingênuo imaginar que Leão, Rivellino e Marinho Chagas pudessem fazer da derrota para a Holanda plataforma eleitoral para a oposição à ditadura.

Na verdade, a questão era bem mais simples: em 70, vivia-se o auge do “Milagre Econômico”, com o PIB crescendo à razão de dois dígitos. Quatro anos e um choque do petróleo depois, o vinho tornara-se vinagre, prenunciando a derrocada econômica que terminaria por dar fim à ditadura em 85.

No pós-ditadura, essa associação tornou-se ainda mais implausível. Só um sujeito muito alienado pra pensar que a vitória nos Estados Unidos em 94 elegeu Fernando Henrique Cardoso. Cavalgando o Plano Real, FHC se reelegeria mesmo que o país fosse desclassificado nas eliminatórias. Da mesma forma, a derrota em 98 não abalou o cenário eleitoral. Tanto é que, mesmo com o país em crise, Fernando Henrique foi reeleito no primeiro turno.

Já neste milênio, a teoria da correlação entre a canarinho e as eleições foi soterrada de vez. 2002 trouxe o pentacampeonato e José Serra, candidato da continuidade, foi superado por Lula. 2006 e 2010 demonstraram o exato oposto: em ambas o Brasil rodou nas quartas-de-final, e, nas duas eleições correspondentes, o candidato da situação levou (Lula II e Dilma).

Seria possível argumentar que, como esta copa foi realizada no Brasil, os efeitos poderiam ser diferentes dos das outras copas. Trata-se de um argumento fraco. Não há razão para imaginar que, do ponto de vista político, os efeitos do desempenho da seleção no Mundial poderiam ter impacto eleitoral só pelo fato de que o evento ocorreu no Brasil.

Pode-se imaginar, contudo, que um sucesso estrondoso na organização do evento, associado a uma vitória da seleção, ajudaria na sensação geral de bem-estar, e que isso, fatalmente, redundaria em mais votos para Dilma Roussef. Daí o aumento de quatro pontos percentuais na última pesquisa Datafolha.

Todavia, com a derrota da seleção, o efeito da Copa nas eleições tende a ser nulo. Nenhum candidato irá a público com a intenção de ganhar votos malhando o Felipão. Da mesma forma que Dilma não poderia reivindicar para si uma eventual conquista do campeonato, a humilhação do jogo contra a Alemanha não pode ser debitada nas suas costas.

De fato, seria uma estratégia suicida qualquer dos candidatos passar a criticar o governo com base no desempenho da seleção de Felipão. O infeliz correria o sério risco de ser tido como “anti-seleção” ou “antipatriota”, o que fulminaria qualquer pretensão eleitoral do sujeito.

Por isso mesmo, o “apagão” do dia 8 de julho deve ser deixado de fora dos debates eleitorais. Passados dois meses do Mundial, no calor da campanha, ninguém mais se lembrará do que ocorreu no Mineirão. Com isso, os candidatos poderão dedicar mais tempo para discutir economia, saúde e educação, os reais problemas do Brasil.

Melhor assim.

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