Vai ter Copa, ou A Copa no Brasil

Pois é, meus caros. A despeito da minha patriótica tentativa para levar a Copa do Brasil para o México, a esta altura do campeonato pode-se dizer que a campanha “México 2014” não teve lá muito sucesso. Afinal, falta apenas uma semana para o jogo de estréia, e não passa pela cabeça de ninguém uma mudança de sede às vésperas do evento. No entanto, talvez essa seja a melhor ocasião para fazer uma retrospectiva dos fatos e analisar o saldo da decisão do Governo de sediar o maior evento futebolístico mundial.

Que o “legado” da Copa foi conversa pra boi dormir, hoje ninguém mais discute. A tal “Copa com dinheiro privado” teve 90% de dinheiro público. Os outros 10% foram financiados pelo BNDES. Pior que isso, somente o fato de que mais de 60% das obras de mobilidade prometidas não foram entregues e sabe-se lá Deus quando serão terminadas. Até mesmo os estádios, palcos do Mundial, foram objeto de atrasos, a ponto de em alguns sedes os primeiros jogos se realizarem ainda com obras em andamento.

À direita e à esquerda, os governos nos mais diversos níveis exercitam o cinismo diante do fracasso. Como quase nenhuma das obras prometidas foi entregue, dedicam-se agora a dizer que nada daquilo era importante e que a Copa pode ser realizada sem elas. Resta explicar o que foi que motivou políticos dos governos federal, estaduais e municipais a assinarem a tal “Matriz de Responsabilidades”, na qual se diz expressamente que as obras de mobilidade eram “essenciais” para a realização do evento. De duas, uma: ou as obras eram dispensáveis, e nesse caso quem assinou a Matriz dizendo que eram essenciais mentiu ao fazê-lo; ou as obras eram realmente fundamentais, e nesse caso mente quem diz que a Copa pode perfeitamente ser realizada sem elas.

Olhando-se em retrospecto, parece claro que o Brasil fez besteira ao aceitar receber a Copa do Mundo. Como demonstrou a Copa das Confederações no ano passado, o evento da Fifa serviu apenas para adicionar fervura ao caldeirão de insatisfações que jazia latente no seio da sociedade. Seria demais atribuir todos os problemas do Brasil à Copa, mas é certo que o evento potencializou a capacidade de mobilização do povo e o sentimento de indignação generalizado com o atual estado de coisas no país.

Independentemente do que venha a acontecer depois que a bola rolar em 12 de junho, também parece claro que a Copa foi um fracasso para o país. Basta olhar ao redor: estamos a uma semana do evento e ninguém vê nem sombra daquele movimento natural e espontâneo que brota em todo o país em época de Copa. Não há enfeites em verde e amarelo pelas ruas. Os carros não trazem, orgulhosos, aquelas bandeirinhas presas aos vidros. Nem mesmo as rodas de bar encontram-se perdidas em discussões intermináveis acerca da escalação da seleção.

E esse talvez é o aspecto mais triste de toda essa confusão. Às vésperas do evento, quando todo mundo deveria estar feliz com a realização do maior evento futebolístico da Terra no país, vive-se o anticlímax da Copa. Ninguém parece preocupado com o que vai acontecer em campo. Ao invés disso, as atenções todas estão voltadas com o que vai acontecer fora dele. Vai ou não ter manifestação? Elas serão maiores ou menores do que as de junho do ano passado? Haverá ou não violência?

A verdade é que, depois de sete anos desde que o Brasil foi escolhido para sediar a Copa de 2014, a única conclusão a que se chega é a de que o país “cresceu os olhos” e quis dar um passo maior do que as pernas. Se tivesse havido uma consulta popular à época, hoje os governos não estariam se desdobrando em explicações para justificar a decisão de aceitá-la.

Legitimidade popular não combina com grandes eventos, eis a lição que a Copa no Brasil deixa para a posteridade.

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