A desintegração ucraniana

Já faz algum tempo que a crise na Ucrânia tinha deixado de ser assunto no noticiário internacional. Depois da derrubada de Yanukovich e o referendo na Criméia, parecia que as potências ocidentais e a Rússia haviam firmado um acordo tácito: vocês levam a Criméia e deixam o resto do país em paz. Não era o melhor dos mundos para nenhum dos lados, mas, ainda assim, permitia a ambos sair-se com o discurso vitorioso. “Ganhamos a Criméia”, diziam os russos. “Salvamos a maior parte da Ucrânia”, gabavam-se os ocidentais.

Pois justo agora que as coisas pareciam caminhar para um processo natural de acomodação, eis que irrompe um projeto de rebelião popular no leste da Ucrânia. Milícias armadas tomaram parte dos edifícios do governo em Donetsk e proclamaram a “independência” da região. Agora, para darem fumos de legalidade à sedição, reivindicam a realização de um referendo à moda da Criméia.

Como seria de se esperar, o lado ocidental da pendenga chiou, enquanto os russos reclamavam por levarem a culpa por tudo que acontece na Ucrânia. Até aí, nada de demais, pois ambos os lados estão apenas recitando o papel que lhes cabe no teatro farisaísta das relações internacionais.

Por óbvio, pode-se concluir que, se a Rússia não está diretamente ligada à revolta no leste ucraniano, está no mínimo incensando a revolta. Afinal, o objetivo dos rebeldes não é propriamente se tornarem um país independente, mas se anexarem à Mãe Rússia. A dúvida é saber se o estímulo à convulsão social envolve uma estratégia maior de anexação de todo o leste da Ucrânia, ou se os russos estão apenas esticando a corda para ver até quando os americanos aguentam.

Observando-se o cenário através do fígado, é possível imaginar que a estratégia russa envolva algum sentimento de vingança. O raciocínio seria mais ou menos o seguinte: “Já que quiseram tomar a Ucrânia da gente durante as Olimpíadas de Sochi, agora vamos tomá-la toda para nós”. O problema, no entanto, é que as coisas na política internacional não se resolvem à base de bílis, e é difícil acreditar que um sujeito calculista como Putin tome uma decisão dessa natureza para atender a questões emocionais.

Do lado ocidental, a margem de manobra é pequena. Como as potências da OTAN perderam o argumento moral quando insuflaram a deposição de Yanukovich, restaram-lhes apenas duas opções: ou pagam pra ver e se arriscam a entornar de vez o caldo da crise; ou se retiram da mesa e dão o jogo por perdido.

Nenhuma das duas hipóteses é satisfatória, mas a segunda traz consequências ainda piores do que a primeira. Com a anexação do leste ucraniano ou do país inteiro, o projeto de soerguimento da “Nova Mãe Rússia” estaria pronto e acabado. No leme, um ditador bilionário e poderoso sentado em cima de um arsenal atômico, pronto a estender sua influência para as áreas a oeste do rio Volga.

Quando os ocidentais pensaram em derrubar o presidente eleito da Ucrânia, o intuito era o de enxotar a Rússia para as pradarias ao leste. Agora, arriscam-se a ver os russos avançando sobre áreas outrora libertadas da Cortina de Ferro. Pior. Sem querer, pode ser que esse movimento impensado acabe desembocando numa nova Guerra Fria.

Dias difíceis se avizinham para o mundo…

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