O problema da zona de conforto, ou Como fazer um trabalho científico a sério

Todo mundo que faz alguma coisa da vida entende a noção de zona de conforto. Seja no trabalho, seja em casa, seja na sua vida pessoal, a partir de certo momento você encontra um padrão para realizar suas tarefas rotineiras de modo que nenhuma delas tenha o poder de lhe arrancar os cabelos. A segurança em realizar as coisas para as quais você se propõe atinge tal nível que você nem mais se estressa. A repetição acaba por se tornar automática.

Se por um lado a segurança se transforma em remédio para a tranquilidade no dia-a-dia, por outro ela funciona como veneno. Como o sujeito se acostuma a repetir um padrão de comportamento, e esse padrão é responsável por resultados constantes e favoráveis, desaparece o estímulo para seguir adiante. Por mais que seja cômodo repetir as mesmas coisas e atingir os mesmos resultados que todo mundo acha razoáveis, a zona de conforto se transforma em uma camisa de força, limitando o horizonte que o sujeito pode almejar.

Os exemplos são vários. No seu cotidiano, mesmo, você pode encontrar inúmero.

Suponhamos, por exemplo, que você seja um pesquisador; um físico, digamos. Primeiro lugar no seu vestibular, queridinho dos professores na faculdades, você sempre se destacou ao longo de sua carreira acadêmica. Terminada a graduação, surge a oportunidade de fazer um mestrado. Duas opções se apresentam. A primeira, na faculdade na qual você se formou. A segunda, no exterior. Qual das duas você deve se escolher?

Objetivamente, as duas faculdades se equivalem. A nacional é uma das melhores do Brasil, premiada internacionalmente. A segunda, uma das melhores do mundo, com professores de nível semelhante aos tupiniquins.

Subjetivamente, a escolha caseira é, em tese, mais vantajosa. Afinal, você já conhece todo mundo, todo mundo te conhece; você sabe exatamente o que esperar da faculdade, e a faculdade sabe exatamente o que esperar de você.

É aí que a porca entorta o rabo. O sujeito mais apressado vai colocar os dois pesos na balança e ver que ele pendeu mais para a nacional; e escolherá ficar por aqui, mesmo. Pode até dar certo, mas o mais provável é que a escolha tenha sido errada.

Não que o sujeito vá fracassar fazendo o mestrado aqui. Longe disso. Vai se sair bem, como se saiu ao longo de toda a sua vida acadêmica. O problema está justamente nisso. Como o padrão de exigência e de trabalho já está preestabelecido, o cara pode até fazer um bom trabalho, mas não será o melhor trabalho de sua vida, nem muito menos o melhor que ele poderia produzir. É dizer: como todos os professores já o conhecem e sabem o que ele pode produzir, nem eles vão tentar exigir o máximo para ver até onde o sujeito pode chegar, nem o sujeito vai se sentir instigado a ir além para provar do que é capaz, pois todos já reconhecem a sua capacidade.

É justamente aí que a zona de conforto se transforma numa terrível camisa de força. Acostumado a determinado padrão de exigência, o cara simplesmente perde o tesão de ir além. “Pra que me desgastar e tentar fazer algo mais, se o que fiz até agora já é suficiente para me dar por satisfeito?”, é o que pensa o cidadão.

Por isso mesmo, para fazer algo cientificamente relevante, é indispensável que você saia de sua zona de conforto. Seja mudando de ares – como no exemplo acima citado -, seja mudando de área – trocar o ramo científico ao qual você se dedica -, o importante é transformar-se novamente em um iniciante, um cara desconhecido, que ainda tem muito pra provar, porque somente assim você conseguirá ir além dos seus limites e produzir algo realmente de valor.

Fica, pois, a dica.

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2 respostas para O problema da zona de conforto, ou Como fazer um trabalho científico a sério

  1. Mourão disse:

    É meu caro Senador, por motivos alheios a minha vontade saí algumas vezes da minha zona de conforto, à época inconscientemente, e gostei, embora tenha ralado bem mais para me sobressair…E você, bem mais do que eu, provavelmente.
    Boa noite

    • arthurmaximus disse:

      É sempre mais gostoso e recompensador saber que você saiu do nada para chegar a algum lugar, Comandante. Nesse aspecto, acho que nossas experiências são bem equivalentes. Um abraço.

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