Projeções eleitorais para 2014

Como todo mundo sabe, o ano no Brasil obedece a regras pagãs de origem religiosa; só começa depois do Carnaval. Entre o ano novo e a esbórnia momina, o pessoal das redações tenta garimpar notícias para estampar as páginas de jornal. E, em ano de eleição, o esporte preferido para encher linguiça jornalística são as pesquisas eleitorais.

Já foi dito aqui por pelo menos uma vez que pesquisas realizadas a um ano da eleição têm a mesma credibilidade das profecias enunciadas pelos pais-de-santo: nenhuma. Noves fora a cláusula do juízo-final, segundo a qual toda a pesquisa contém a ressalva de que tudo pode acontecer, inclusive nada, todo o escrutínio do sentimento do eleitor, nesta altura do campeonato, é inválido, simplesmente porque a esmagadora maioria da população não está nem aí para o assunto. Só vai começar a se preocupar com ele quando a campanha começar.

As últimas pesquisas do Ibope, do Datafolha e do Vox Populi mostram mais ou menos o mesmo cenário. Dilma Roussef em primeiro, com aproximadamente 40% dos votos; Aécio Neves em segundo, com algo entre 15% e 20%; e Eduardo Campos em terceiro, com percentuais variando entre 10% e 12%. A estagnação é vista pelos lados dos governistas como prova da fragilidade da oposição e, da outra banda, é analisada pelo lado dos oposicionistas como demonstração de fraqueza da presidente.

A divergência acerca da interpretação dos mesmos números, extraídos de uma mesma realidade, comprova apenas a máxima sempre negada pelos estatísticos: os números não mentem, mas as pessoas mentem com os números.

Na verdade, além das óbvias distorções produzidas pela interpretação dos números por gente diretamente interessada no resultado que se pretende extrair deles, a maior parte das análises eleitorais realizadas no país tende a desconsiderar a big picture, ou seja, analisa os números a seco, sem considerar fatores históricos. Como se isso não bastasse, mesmo fatores relacionados ao modo como o brasileiro exerce o direito de sufrágio tendem a ser ignorados, como se a eleição fosse um evento isolado e inteiramente desconectado da realidade na qual está inserida.

Portanto, para que qualquer projeção de cenário eleitoral possa ser levada a sério, o analista deve considerar três fatos essenciais sobre a alma do brasileiro:

1 – Não há voto ideológico no Brasil: salvo uma minoria que talvez não chegue a 10% da população brasileira, ninguém vota pensando se determinado candidato representa a “esquerda” ou a “direita”, muito menos se determinado partido é estuário das “forças progressistas” ou das “forças conservadoras”;

2 – A corrupção não define o voto: ou, por outras palavras, não importa a sujeira que o candidato carrega consigo; o eleitor vai votar nele mesmo assim. Isso explica porque políticos notoriamente corruptos e até mesmo condenados pela Justiça conseguem eleger-se e se reeleger sucessivamente. Repare que não estou aqui a defender que a corrupção seja aceita passivamente. Trata-se apenas de não agredir os fatos. Seja porque o brasileiro acha que, em matéria de corrupção, todos os políticos são iguais, seja porque se reconhece ele próprio um corrupto em potencial, a verdade é que a roubalheira nunca definiu eleição.;

3 – A insatisfação com o Governo não define a eleição: que o diga Fernando Henrique Cardoso. O Brasil estava quebrado em 1998, com crescimento pífio e privataria comendo solta. Mesmo assim, Fernando Henrique foi reeleito no primeiro turno. Por quê? Entre outras coisas, porque as pessoas preferiram acreditar na ilusão da paridade cambial. Se FHC saísse, o dólar dispararia, isso era uma certeza. E aí a maioria deve ter pensado: “Ruim com ele, pior sem ele”.

A partir daí, pode-se considerar algumas dúvidas para as quais ninguém tem uma resposta definitiva. Vamos a elas:

1 – Qual a capacidade de Lula decidir a eleição em favor de Dilma?: Em 2010, Lula era o político mais popular da Terra e a economia crescia a 7,5% a.a. Se fosse possível, Lula ganharia facilmente um terceiro mandato. Como a Constituição proibia a segunda reeleição, votaram no candidato que prometia fazer tudo igualzinho a ele: Dilma Roussef. Agora, quatro anos depois, todo mundo já viu que Dilma não é Lula. O crescimento é pior do que o período Fernando Henrique e a inflação está em alta. Fora isso, mesmo setores da sociedade historicamente ligados ao PT – como sindicatos, MST e os servidores públicos – vêem Dilma mais como continuação de FHC do que como continuação de Lula. Não é certo que se empenhem da mesma forma com que se empenharam em 2010.

2 – Qual a capacidade da oposição se opor sem assustar o eleitor?: até agora, a oposição não disse a que veio. Nem Aécio Neves nem Eduardo Campos pronunciaram algo que possa ser identificado como uma idéia. Platitudes como “vamos fazer mais e melhor” não vão muito além de um mote de campanha, mas são insuficientes para convencer o eleitor insatisfeito com Dilma Roussef a tentar uma mudança. Não se deve subestimar o “efeito inercial” da reeleição: para tirar alguém que já está lá, o sujeito tem que ser realmente convencido de que, votando na oposição, sua vida vai melhorar. Do contrário, melhor deixar tudo como está.

A chave para as eleições deste ano, portanto, passa pela resposta a essas duas perguntas. Quem conseguir decifrar com suficiente antecedência esse enigma, pode se meter a prever o resultado das urnas em outubro. Quem não as tiver, é melhor ficar calado.

Porque de previsões e especulações, o país já está cheio.

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