Desde sempre, a política nacional foi um dos alvos mais constantes dos textos do Blog. Não só porque o noticiário político é tradicionalmente medíocre, mas porque há dentro deste que vos escreve um perseverante sentimento de indignação com o mundo ao nosso redor. E o Brasil, especialmente, é um terreno fértil para fazer germinar esse sentimento.
Como tudo na vida, aquilo que é mais próximo acaba tendo um peso desproporcional na análise geral. Neste caso, pelo fato de o Autor morar no Ceará, Cid Gomes acaba sofrendo mais do que a média. Não porque seu governo é bom – ao contrário, é uma tragédia em várias áreas -, mas porque, como bem comprova Roseana Sarney (MA) e Rosalba Ciarlini (RN), há tragédias bem maiores nas redondezas.
Mesmo assim, em um dos primeiros escritos deste espaço, foi possível realizar uma feliz reunião entre a crítica política e a música, também uma das características mais positivas deste espaço. Naquela época, podia-se dizer que a crítica era apressada, pois Cid acabara de iniciar seu segundo mandato. Hoje, a poucos meses de deixar o Abolição, com o desastre consumado, o post acaba por revelar-se profético.
De resto, é torcer para que a indignação se transforme em votos nas próximas eleições.
Uma música fala mais do que mil palavras
(Publicado originalmente em 27.01.11)
Pra quem não leu o primeiro post do blog, o governador Cid Gomes enviou à Assembléia Legislativa um projeto que retirava poderes da Semace pra alguma$ obra$, que poderiam ser liberadas a toque de caixa.
A Chefe da Semace, a Procuradora do Estado Maria Lúcia Teixeira, reclamou. Disse pelo twitter que o projeto tinha sido feito à sua revelia, era inconstitucional, retirava poderes da Semace e contrariava o interesse público. Lúcia Teixeira, cuja gestão começou justamente depois de uma operação da PF que prendeu a cúpula da Semace por irregularidades na concessão de licenças ambientais, não tinha o menor apego ao cargo. Fazia-o por dever de ofício.
Diante da repercussão negativa, Cid veio a público dizer que não era bem assim, que a opinião dele não era essa, e blá-blá-blá.
Combinou-se, então, uma “mudança” no projeto. Tiraram a palavra “dispensa” de licenciamento ambiental para “simplificação” da licença. Havia, pois, a possibilidade de uma saída honrosa pra todos: Cid mandou o projeto, a Chefe da Semace chiou, muda-se o projeto, o projeto é aprovado. Cid poderia dizer que fez certo ao mandar, e que a Assembléia aperfeiçoou o projeto, tudo como manda o figurino. Lúcia Teixeira poderia cantar vitória, dizendo que foi graças a ela que o projeto foi alterado.
Faltou combinar com os russos. A Chefe da Semace refugou o acerto. Fez como Marina Silva, quando era Ministra do Meio Ambiente, diante de esperteza semelhante do torneiro bissílabo de São Bernardo: Perco a cabeça, mas não perco o juízo.
Chega-se à conclusão de que, em determinados cargos públicos, serve-se mais ao país deixando-o do que nele permanecendo.
Na recepção da solenidade de despedida, Lúcia Teixeira pediu que tocasse ao fundo “Apesar de você”, do Chico Buarque.
Pra bom entendor, meio acorde basta.
Segue a música com algumas montagens pós-64: