Semana especial de aniversário – Recordar é viver: “O Egito em convulsão”

Ao lado da História, a Política Internacional sempre foi um ponto alto do Blog. Como a maior parte da imprensa nacional não dá a mínima para o que acontece fora do país – quando muito se limita a traduzir os highlights de agências como Associated Press -, o cidadão acaba ficando órfão de um tipo de análise que saia do lugares-comuns que costumam povoar o “noticiário internacional”.

De fato, analisar o cenário mundial nunca foi tarefa fácil. Entender as intrincadas relações de interesses envolvidas em determinados acontecimentos envolve, além de algum tempo de estudo, um perigo muito grande de que a análise, observada em retrospecto, revele-se um gigantesco tiro n’água. Como boa parte dos jornalistas brasileiros não está disposta a correr esse risco, ficamos na mediocridade de “o Secretário-Geral da ONU exortou as partes envolvidas ao diálogo construtivo” e outras baboseiras do gênero.

Uma vez que este espaço nunca buscou audiência fácil e tem nos seus seguidores um público diferenciado, as apreciações da conjuntura internacional acabaram por se tornar, a um só tempo, remédio para a carência de análises na mídia nativa e um exercício prazeroso de exame do jogo geopolítico por este que vos escreve.

Com menos de 10 dias no ar, arrisquei-me na análise da crise no Egito. À época, ainda mandava naquelas plagas Hosni Mubarak. Muita gente celebrava o povo na rua e lançava o epíteto que marcaria as revoltas do mundo árabe: “Primavera Egípcia”. Cansado de anos de ditadura e martírio, os egípcios teriam saído às ruas em busca de “democracia”.

De minha parte, ceticamente, perguntava eu se era democracia mesmo o que os egípcios queriam, ou somente a troca da guarda.

Passados três anos, não resta dúvida de que a análise não poderia ter sido mais precisa.

O Egito em convulsão

(Publicado originalmente em 27.01.11)

Quem assistiu o noticiário dos últimos dias deve saber que o Egito está em convulsão pelas manifestações populares pedindo a derrubada do governo de Hosni Mubarak.

Dizer que os manifestantes estão pedindo por democracia pode ser um tanto presunçoso por parte da mídia ocidental. O Egito não sabe o que é democracia. Nunca soube. Desde os faraós, passando pelas ocupações estrangeiras (romanos, persas, macedônios, franceses, ingleses e uma enorma lista de etc.), o Egito sempre esteve sob mãos de ferro.

Na história recente, com um golpe de Estado em 1952, Gamal Abdel Nasser governou como ditador até sua morte, em 1970. Depois disso, assumiu um cara metido a boa praça, Anwar Saddat. Convencido de que o Egito não tinha a mínima chance contra Israel após a sova histórica da Guerra dos Seis Dias, começou a negociar uma distensão com o estado judeu. As tratativas envolviam a devolução da península do Sinai ao Egito (tomado na Guerra dos Seis Dias) e o reconhecimento do Estado de Israel (até aquele momento nenhuma nação do Oriente Médio reconhecia o estado judeu).

Essas tratativas ficaram conhecidas depois como Acordos de Camp David, e Anwar Saddat e o Primeiro-ministro israelense, Menachem Begin, ganharam o Nobel da Paz de 1978.

Insatisfeitos, parte dos militares egípcios, com o apoio da Líbia de Muammar Khadafi, organizaram um atentado tão discreto e sutil como um elefante em loja de porcenalas.

No meio da parada militar de 6 de outubro de 1981, no exato momento em que os caças egípcios passaram com as cores da bandeira (fazendo barulho, é evidente), um dos caminhões desviou-se do desfile, parou em frente à Tribuna de Honra e dele desceram homens com rifles, metralhadoras e granadas. Metralharam a tribuna inteira, lançaram uma granada e atiraram a não mais poder. Atônita, a segurança de Saddat demorou a reagir. Depois do estrago feito, mataram dois dos terroristas, prenderam mais um, e os demais fugiram.

Pra quem duvida, aí vai o vídeo com o atentado:

Saddat morreu, e seu vice, Hosni Mubarak, assumiu como ditador. Manteve a política de paz com Israel e, com isso, ganhou a simpatia do ocidente (leia-se: EUA), que sempre fechou os olhos para o que faziam ditadores amigos.

O fato é que, desde então, Mubarak (des)manda no Egito. 30 anos depois, é natural que a população esteja de saco cheio.

A pergunta é: é democracia que querem? Ou só a troca de guarda?

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