Paixão e ciência

Um dos lugares-comuns mais difundidos mundo agora é de que, para você ser bom na sua profissão, deve amar o que faz. Como todo lugar-comum, esse adágio embute um fundo de verdade e um risco. O fundo de verdade decorre da constatação empírica de que ele tende a se repetir em condições semelhantes de temperatura e pressão. O risco está na generalização acrítica do fenômeno, ignorando condições particulares que podem desaguar em resultados diferentes.

Do ponto de vista prático, de fato é sempre melhor que você goste do que faz. Afinal, fazer uma coisa com desgosto ou somente por obrigação geralmente induz a que você não dê o melhor de si. Por isso mesmo, o resultado pode não ser o melhor possível.

Se isso é verdade por um lado, por outro a pior coisa que um cientista pode fazer é se apaixonar pelo objeto de seu estudo. É dizer: a análise científica rigorosa não deve ser governada por paixões, pois, no momento no qual isso acontece, o resultado da pesquisa estará irremediavelmente contaminado.

Quando o sujeito se deixa levar pela paixão ou por gostos pessoais durante o estudo do objeto de sua pesquisa, o cérebro pode ser levado a criar alternativas que “transformem” as evidências, de maneira a que se adaptem às idéias pré-concebidas do cidadão. Com isso, o resultado da pesquisa fica distorcido e deixa de representar o que efetivamente foi observado.

Um exemplo pode demonstrar de forma mais clara o que estou tentando dizer:

Um dos ministros do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, adora propalar durante os julgamentos o “amor” que nutre pela Constituição Federal. Não obstante Marco Aurélio ser um dos melhores ministros do STF, a pior coisa que pode fazer é amar o texto constitucional. A Carta Magna não deve ser amada. Deve ser interpretada. E interpretada objetivamente, independentemente das idiossincrasias dos responsáveis pela sua interpretação.

Eu, por exemplo, não gosto do fato de a Constituição ter descido ao detalhe de ter previsto direitos para as empregadas domésticas. Mas o que eu acho ou não disso não tem qualquer relevância para a o resultado da interpretação que devo produzir a partir dessa previsão normativa. Eu posso reclamar, dizer que é besteira, que a Constituição teria de tratar somente de estruturação do Estado e distribuição de poderes. Tudo isso seria desimportante. O que importa é que, ao analisar a questão, devo ter em mente que o regime jurídico das empregadas domésticas tem assento constitucional, e sob esse ângulo deve ser analisada.

O próprio Einstein, por exemplo, caiu em uma pegadinha desse tipo. Ao desenvolver sua Teoria da Relatividade, Einstein deu-se conta de que, para que seu modelo funcionasse corretamente, seria necessário pensar que o Universo estava em expansão. Isso quando a opinião majoritária na comunidade científica era a de que o Universo era estacionário, ou seja, nem se expandia nem se encolhia.

O alemão nem sequer considerou a hipótese. Segundo ele explicou depois, um Universo em expansão conflitaria com sua idéia de que um Deus o teria criado. Para ele, se Deus criara o Universo, ele necessariamente deveria ter criado um cosmos eterno e imutável. Para adaptar sua Teoria da Relatividade a um Universo estacionário, Einstein criou a chamada “Constante Cosmológica”, um artifício científico que tornava compatível a Relatividade com o Universo estacionário.

Pouco tempo depois, Hubble constatou que as galáxias estavam se distanciando umas das outras. Estava definitivamente sepultada a idéia de um Universo estacionário. Envergonhado, Einstein renegou sua Constante Cosmológica e a qualificou como o “maior erro de sua vida” (posteriormente, ela foi ressuscitada pelos cientistas e pode ser que esteja certa, mas isso é outra história).

Por isso mesmo, se você quiser ser um bom cientista, faça como os jogadores de pôquer: Leave emotions at the door.

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4 Responses to Paixão e ciência

  1. Avatar de Mourão Mourão disse:

    Meu caro Senador. Esses amores declarados por coisas que você deve, rigorosamente, conhecer e obedecer, normalmente, são mais que demagógicos. A exemplo das heresias e violências que se cometem em nome de Deus, em nome da pátria e por aí vai.

  2. Avatar de rodriguesjr rodriguesjr disse:

    gostar do que faz é diferente de gostar do objeto profissional. exemplo está no própriotexto: o ministro foi, digamos, nfeliz em dizer que gosta da carta magna. o correto seria afirmar que gosta da profissão de juiz, ou seja, julgar mediante a constituição federal, independente da lei atual. exemplos mais claros e visiveis: as profissões de medico e professor. gostar de ser medico é diferente de gostar de prescrever as mesmas receitas. ser medico é gostar de examinar, conhecer e pesquisar a melhor receita. quanto a ser professor o gosto é pela didatica, pelo ensinar, não é gostar da mesma materia nua e crua (o brasil foi descoberto por… em… bla bla bla…). é gostar de ir atras de informações, da melhor maneira de ensinar, etc. não é o mesmo que se apegar a o teorema de pitagoras e ensinar só isso e do mesmo jeito sempre.

    • Avatar de arthurmaximus arthurmaximus disse:

      Tem razão, Rômulo. Na verdade, me vali do adágio pra poder ter um mote para abrir a discussão sobre o tema. Mas, no fundo, você está certo: gostar do que faz não tem nada a ver com gostar do objeto profissional. Um abraço.

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