A semana começou conturbada pelo aparecimento de uma nova modalidade de manifestação social, o agora famoso “rolezinho”.
Formado preponderantemente por jovens de periferia, o rolezinho significa, em resumo, a marcação de encontros em shoppings centers. Utilizando redes sociais, a malta juvenil periférica designa dia e hora para se encontrar. E, quando o faz, não é raro a coisa desandar para a arruaça pura e simples nos centros comerciais.
Fazendo aquilo que normalmente faz quando é encurralada – besteira -, a elite paulista reagiu da forma mais previsível possível: tentou barrar a invasão da periferia nos shoppings através de medidas judiciais. Já há até gente pensando em reprisar o “esquema boate” nos centros comerciais. Seguranças postados na frente dos shoppings escolheriam, com base no visual, quem poderia ou não entrar.
Obviamente, à tentativa de impedir os rolezinhos seguiu-se a grita – não sem alguma razão – contra a natureza preconceituosa da medida. Fora isso, juristas e não juristas se perdiam em discussões infindáveis acerca da legalidade e/ou constitucionalidade da vedação de ingresso dos jovens da periferia nos centros comerciais.
Não me interessa, aqui, discutir a questão sob o ângulo de uma remota adesão temática do rolezinho à “luta de classes”, muito menos os aspectos jurídicos da questão. Interessa-me, na verdade, falar dele sob um enfoque sociológico. Isto é: o que representa o fenômeno do rolezinho dentro do contexto social atual?
Já se escreveu aqui que o Brasil alimenta há algum tempo a construção de uma “geração Shopping Center“. Alimentada à custa de uma cópia do “sonho americano”, a geração Shopping Center cresceu em um ambiente no qual a única alternativa viável de lazer é aquela promovida em espaços privados. Os espaços públicos, por supostamente “caros” e irrelevantes, foram relegados a décimo quinto plano.
Não se trata de um fenômeno novo, mas de algo que se insinuou no começo dos anos 60, se aprofundou durante os anos 70 e degringolou de vez da década de 80 pra cá. O cidadão deixou de ser um sujeito a exercer sua cidadania para resumir-se a um consumidor em potencial. Sob esse prisma, se ele quer uma atividade de lazer, deve “consumi-la”, o que pressupõe obviamente uma contraprestação pecuniária por esse benefício. Não há alternativa de diversão fora do jogo tradicional do sistema capitalista.
O grande problema do brazilian way of life é o fato de que, à diferença de seu correspondente norte-americano, não há aqui estrutura semelhante à presente nos Estados Unidos. É dizer: o sujeito pode até estruturar uma sociedade inteira em torno da idéia de consumir, mas deve arcar com os custos daí decorrentes. E eles passam pela perda progressiva de valores, pela decrepitude acentuada do tecido social e, claro, pelo aumento da violência.
Não é por acaso, por exemplo, que negros e brancos continuam funcionando como mundos diferentes nos Estados Unidos. Tampouco o acaso explica o fato de os americanos terem a maior população carcerária do planeta. Tudo está conectado ao fato de que você é o quanto você produz; e o quanto você produz determina o quanto você pode consumir; e o quanto você consome define o seu status social. Se o sujeito não produz nada ou se produz pouco, seu valor para a sociedade é nenhum.
Na verdade, os Estados Unidos só funcionam minimamente porque se gastam os tubos tentando remendar os furos decorrentes dessa estruturação enviesada da sociedade. Aqui, como ninguém nunca deu muita bola pra isso, a cópia assemelha-se mais a um Frankestein: um remendo com todas as cicatrizes à mostra.
É aí que entra o rolezinho. Até onde a vista alcança, não há em nenhum dos jovens nele envolvidos uma intenção de denunciar esse sistema de perversão social. Em outras palavras, ninguém organiza um rolezinho com o propósito de denunciar as “contradições do capitalismo”. Seu intuito, no fundo, é muito mais simples: sou jovem e, por ser jovem, quero me divertir da mesma forma como os outros jovens se divertem: indo ao Shopping Center.
Obviamente, a elite, que costumava ter nos Shopping Centers seu reduto natural de diversão, a ser desfrutado longe da “inconveniente” da malta periférica, sente-se “territorialmente invadida” quando jovens trajando roupas extravagantes e colares chamativos resolvem freqüentar um ambiente antes restrito a ela. O sujeito da elite olha aquele jovem deselegante com olhar assustador e pensa: “He simply doesn’t belong in here“. Por isso, as reações impensadas, como a restrição de acesso e medidas judiciais contra os grupos da periferia.
Do ponto de vista social, portanto, o que os rolezinhos comprovam é a falência do modo brasileiro de encarar a vida. Como era de se esperar, a cópia macaqueada do modelo americano esgotou-se e implodiu por si mesma.
O que virá depois dela?
Cabe a nós responder.