Eu sei que é notícia velha. Mas, como hoje deve acontecer o julgamento do Tapetão do Campeonato Brasileiro no STJD, creio que convém deitar algumas linhas sobre a questão da violência nos estádios.
Há pouco mais de uma semana, Brasil e mundo assistiram chocados às cenas de violência no jogo entre Atlético Paranaense e Vasco da Gama. Sem policiamento, com a presença de poucos seguranças privados desarmados e mal preparados, a tensão entre um time lutando pela Libertadores e outro, contra o rebaixamento, formou o caldeirão ideal para a barbárie humana dar o ar de sua graça.
Não que se trate de algo novo. Infelizmente, as cenas de brutalidade entre torcedores já fazem parte do cotidiano futebolístico nacional há pelo menos um quarto de século. São comuns as cenas de selvageria entre torcedores e policiais, ou somente entre torcedores, dentro e fora dos estádios. Quase sempre, a notícia vem como apêndice da reportagem “principal”, sobre o resultado do jogo. Salvo em casos onde há morte ou lesões graves, como ocorreu no jogo entre Atlético Paranaense e Vasco, a mídia não costuma conceder mais do que alguns míseros segundos para o retrato da violência.
Em quase todos os casos, as brigas decorrem do confronto entre torcidas organizadas. Não fiz nenhuma pesquisa estatística, mas certamente os casos de violência nos estádios decorrem, em mais de 90% dos casos, a essa facções. Como ninguém é processado judicialmente, a reincidência é altíssima nesse tipo de caso. Não por acaso, a maioria dos brigões identificados já haviam se envolvido anteriormente em brigas nos estádios.
A pergunta que todo mundo deve estar se fazendo é a seguinte: se há violência nos estádios e quase sempre ela está relacionada às torcidas organizadas, por que simplesmente não se as extingue?
Deixando-se de lado, por ora, qualquer análise sob o aspecto jurídico da questão, a verdade é que as organizadas continuam a trafegar livres, leves e soltas nos estádios porque sua existência é conveniente para as direções dos clubes. Sim, os dirigentes esportivos são responsáveis indiretos pela maior parte da violência nos estádios.
Na verdade, desde sempre se estabeleceu uma relação promíscua entre os bandos organizados, aos quais se deu o nome de “torcida”, e os diretores de clube. Em troca do “apoio” ao time, dirigentes distribuem benesses, como entradas francas nos jogos, afretamento de ônibus e, no limite, até entrega de dinheiro para os “líderes” dessas facções.
No início, é até possível que tenha existido algum sentimento nobre nessa relação de cumplicidade. Não é esdrúxulo pensar, por exemplo, que os dirigentes agiam assim com vistas a lotar os estádios com gente torcendo pelos seus times. Da mesma forma, é razoável acreditar que os donos dos clubes financiassem “excursões” de torcedores a outros estados ou países para que houvesse um mínimo de gente gritando a favor do time em arenas hostis.
Mas, se houve inocência no começo dessa relação, hoje já se pode dizer que ela descambou para a mais completa promiscuidade.
O que acontece hoje é que as torcidas organizadas servem para dois propósitos.
No âmbito estritamente “esportivo”, os bandos desempenham a função de massa de manobra dos dirigentes. Tudo aquilo que o dirigente quer fazer e não pode, porque pegaria mal, elas fazem por ele. Os exemplos são vários.
Quando o time joga mal e os jogadores não mostram comprometimento, o dirigente sempre aparece nas entrevistas pedindo calma e mostrando sua confiança no elenco. Pelas costas, lá está a torcida organizada jogando ovos e atirando pedras nos ônibus do time. Da mesma forma, quando o técnico engata uma sequência de maus resultados, o dirigente dá entrevistas reafirmando a confiança no trabalho dele e dizendo que não pensa em substitui-lo. Pelas costas, lá está a torcida organizada invadindo treino e pichando muros pra pedir a demissão do treinador.
“Extracampo”, a torcida organizada funciona como catalisador político das pretensões eleitorais dos dirigentes. Há de ser muito ingênuo o sujeito que acredita ser uma coincidência grande parte dos donos de clube serem ocupantes de cargos políticos. Por trás da rede escusa de favores e benesses distribuídas à torcida organizada, está a construção sub-reptícia de uma grande rede de cabos eleitorais, prontos a atuar em favor dos seus no período eleitoral.
Por isso mesmo, quando um membro de torcida organizada é apanhado com a boca na botija, logo aparece o dirigente do clube reclamando da “truculência policial” e pagando advogado para defendê-lo. Afinal, a manutenção da cumplicidade depende diretamente da mão amiga na hora da dificuldade.
Se os dirigentes estivessem realmente interessados em acabar com a pantomina, bastaria negar apoio na hora da prisão e encerrar a concessão de ingressos e o financiamento de excursões ao brigão. Se continuam a fazê-lo, é porque estão dispostos a pagar o preço que a massa de manobra cobra.
Para a perpetuação do fenômeno, não se descarte sequer a participação de representantes da lei como agentes indutores da violência nos estádios. Assim como no caso das “bancadas da bala”, muito delegado e promotor já se elegeu com a bandeira do “combate” às torcidas organizadas. No entanto, assim como nas suas similares – alimentadas à custa do noticiário televisivo que retrata o mundo cão das delegacias -, também aqui ninguém está interessado propriamente em acabar com a violência nos estádios. Isso porque, se ela acabar, cairá por terra também a bandeira com a qual se elegeram.
Tudo isso somado, não é difícil entender a razão pela qual entra ano, sai ano, as cenas de violência nas arquibancadas se repete. No fundo, a questão é muito simples. A violência nos estádios não acaba porque ela se tornou um grande negócio.