A importância dos militares, ou Por uma nova ordenação das Forças Armadas

Muita gente boa que frequenta este espaço reclama da maneira por vezes rude com a qual trato os militares. A reclamação não é de todo improcedente. Reconheço que há, de minha parte, certa implicância com a caserna. Mas isso deriva da convicção de que nunca é demais lembrar ao país a desgraça que foi o período militar. Daí a necessidade de o tema ser sempre revisitado para não cair no esquecimento.

Por outro lado, ninguém ignora que, desde a redemocratização, as Forças Armadas vêm comendo o pão que a plutocracia amassou. Cortes de verbas, sucateamento do maquinário, abandono de instalações, aviltamento dos salários e uma enorme lista de etc. compõem um cenário de tristeza dentro dos quartéis. Para quem passou 21 anos surfando na crista da onda, não deixa de ser duro saber que há lugares onde os recrutas têm de ser dispensados ao meio-dia, porque não há verba para manter a alimentação da tropa nos dois turnos.

As razões para isso são fundamentalmente duas.

Em primeiro lugar, há um certo instinto revanchista entre aqueles que sofreram durante o período militar e que, desde 1985, começaram a ocupar posições de poder. encontram-se em posição de poder. É como se dissessem intimamente: “Agora vocês vão ver o que é bom pra tosse!”

Em segundo lugar, há uma crença generalizada de que o Brasil não precisa de Forças Armadas. Como a última guerra da qual o Brasil participou (II Guerra Mundial) terminou há quase setenta anos, e o último conflito regional no qual se envolveu mais diretamente ocorreu no século XIX (Guerra do Paraguai), consolidou-se o entendimento de que gastos com verbas militares é como jogar dinheiro no lixo.

Nada mais equivocado.

De início, o fato de as Forças Armadas terem praticado as atrocidades que praticaram durante o regime militar não deve levar à conclusão de que o país não precisa delas. Pelo contrário. Nenhum país do mundo que se pretenda o status de potência global pode abdicar do direito de ter uma força militar ativa e com forte poder de dissuasão.

Fora isso, o Brasil não é a Costa Rica, país desprovido de riquezas minerais e sem localização estratégica no mundo; nem muito menos o Japão, que tem um acordo militar com os Estados Unidos. É um colosso de dimensões continentais, com o maior território da América Latina e uma posição estratégica no Atlântico Sul. Se não bastasse, foi ainda abençoado com riquezas por todos os lados, inclusive no mar.

Embora seja um exagero pensar em alguma espécie de “anexação” da Amazônia brasileira, não é paranóico admitir que outras potências têm interesse nas nossas riquezas, especialmente agora, com a descoberta do pré-sal. Se algum dia tivermos de entrar em guerra, seremos nós que teremos de defender nossas possessões. Nenhum outro país virá em nosso auxílio.

Por isso mesmo, o Brasil deveria pensar uma nova forma de ordenação de suas Forças Armadas. É preciso pensar, por exemplo, o tamanho da tropa. É certo que, durante a ditadura, houve um inchaço da máquina militar. Entre outros motivos, porque era a “carreira do momento”. Mas, hoje, a carreira militar não desperta tantos atrativos. Tampouco faz sentido ter um exército de 500 mil homens, como já ocorreu no passado.

A redução do efetivo poderia diminuir o custo global das Forças Armadas, mas, por outro lado, poderia resultar em aumento dos salários de quem permanecesse na ativa. Além disso, com menos instalações para se manter, sobraria dinheiro para investir em armamento e tecnologia, instrumentos essenciais na guerra moderna.

Além disso, é preciso repensar o posicionamento da tropa. Nossa distribuição estratégica de forças atende a conceitos do século XVII. Mais da metade da tropa encontra-se no litoral, preparada para algum tipo de invasão por mar, quando, na verdade, deveria estar do outro lado, protegendo as fronteiras com os países vizinhos. Não custa lembrar que, nos anos 60, 2/3 da máquina militar estavam sediadas no Rio de Janeiro (por essas e outras é que o Comandante da Vila Militar costumava mandar mais que o Ministro do Exército, mas isso é outra história).

Não será tarefa fácil. Fora todas as dificuldades burocráticas, há vários fatores políticos que podem emperrar o processo. Todo mundo fala (com razão) em Comissões da Verdade para investigar os crimes cometidos durante a ditadura militar. Mas pouca gente se dá conta de que, mesmo numa democracia, não se pode prescindir das Forças Armadas.

A verdadeira superação do trauma histórico somente acontecerá quando os civis deixarem de olhar para os militares como cães danados, condenados a expiar seus pecados por toda a eternidade. Até lá, é rezar para que o Brasil não entre em guerra com ninguém.

Porque, do contrário…

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Uma resposta para A importância dos militares, ou Por uma nova ordenação das Forças Armadas

  1. Mourão disse:

    Não vejo revanchismo dos governos civis contra os militares, em particular dos governos Sarney( o cuidado com os militares era extremo), Itamar Franco e Lula), o pior mesmo para caserna foi o Collor, que não é exemplo de perseguido político. Se você atentar bem o governo Figueiredo não foi dos melhores para os militares em termos salariais. O grande beneficiado foi a Polícia Federal que recebeu, ao final do dito governo, aumentos de até 500%. Os militares quando estavam no poder não recebiam 13º salário, sabia?. O mundo civil, majoritariamente, tem forte admiração pelas Forças Armadas, e a ditadura não é do interesse da grande maioria dos jovens. Hoje a maioria dos que se alistam querem servir e é muito mais fácil ser dispensado do que aproveitado, principalmente os candidatos a servir no Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva( NPOR). O que ocorre é que no nosso órgão há uma antipatia de muitos aos militares em virtude da subordinação organizacional que nos é imposta e pela ligação que fazem dos membros da direção central com o Exército, em virtude de muitos serem oficiais R/2. Um outro aspecto que chamo atenção é que as Forças Armadas, mais diretamente o Exército, têm mudado bastante as suas prioridades geopolíticas e estratégicas tanto no cenário internacional quanto nacional, o que tem influenciado a execução do Projeto Calha Norte ( ocupação da Amazônia, que somente é realizada pela FA,pois os ministérios civis não têm força e, talvez,interesse de deslocar pessoal para aquela região) e também com o deslocamentos de Unidades de médio porte para o Norte, a exemplo do tradicional Grupo de Artilharia de Campanha( GAC) antigo Grupo de Obuses(GO), localizado por muitos anos na Avenida Luciano Carneiro. Quanto ao mais, concordo plenamente que é preciso discutir seriamente uma Política de Emprego das Forças Armadas( a Marinha quando comandada pelo Almirante Flores ensaiou alguma coisa) pois é fundamental que o País conte com um Poder Militar ágil, moderno, leve e eficiente, pois sobra oportunidades de ser ele bem empregado, mesmo estando nós distantes de hipóteses de guerra.
    O assunto é oportuno e pena que seja (mal)tratado com açodamento e preconceito pelos que deveriam buscar soluções para as múltiplas questões que o revestem.

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