A Missão Artística Francesa

Como hoje é Dia da Bandeira, a data comemorativa me dá o mote para tratar de um assunto praticamente esquecido da história do Brasil: a Missão Artística Francesa.

Todo mundo conhece mais ou menos a história do Brasil-Colônia até a vinda da Família Real, em 1808. Desde o período pré-colonial, passando pela fase das Capitanias Hereditárias e dos Governos-Gerais, até chegar na categoria de Vice-Reino de Portugal, o Brasil sempre ostentou a condição de satélite da metrópole portuguesa. Era lá onde ficava a Corte e eram lá onde as decisões eram tomadas.

Tudo mudou, claro, quando Napoleão resolveu decretar o bloqueio continental. Sem alternativa à dependência inglesa, Portugal rompeu o bloqueio e sujeitou-se à invasão das forças francesas. Sentindo o bafo do corso no cangote, a Corte portuguesa arrumou a trouxa e pegou o rumo da roça. Com cuidado para não parecer que estavam fugindo, como disse D. Maria I, a Louca, os nobres portugueses vieram se misturar com a malta colonial.

Como em todas as mudanças, a Família Real portuguesa teve de fazer algumas adaptações da vizinhança para se adaptar ao ambiente tropical. Além da criação da Imprensa Régia, do Branco do Brasil e de duas faculdades de Medicina, o Brasil deixou de ser formalmente um satélite português para elevar-se à condição de reino. De modo figurado, os domínios portugueses agora eram denominados de Reino Unido de Brasil, Portugal e Algarve. Até aí, tudo bem; a história é bem conhecida de todos.

O que pouca gente lembra é que, pouco depois, a vinda da Família Real também influenciaria de maneira decisiva a cultura do país. Decidido a dinamizar a vida da antiga possessão, tornando-se, digamos, mais “aprazível” para a Corte, D. João VI resolveu desenvolver as artes na primitiva colônia. Além de determinar a instituição da Academia Imperial de Belas Artes, D. João quis convidar artistas para renovar o ambiente cultural no Brasil. E, para cumprir essa missão, ninguém melhor do que os franceses.

Apesar de terem sido os responsáveis pela expulsão da Família Real, àquela altura as relações entre Portugal e França passavam por um período de distensão. Estamos em 1815. Napoleão já fora defenestrado pela segunda vez, agora para não mais retornar. A monarquia era restaurada em quase todos os países europeus, e o continente deixara de ser aquele ambiente revolucionário convulsionado pelo baixinho invocado.

Nesse contexto, Antônio de Araújo e Azevedo, 1º Conde da Barca, ministro do Reino, achou que seria de bom tom trazer artistas franceses para dar uma “repaginada” na capital do Reino, incorporando elementos da cultura francesa, então a mais invejada e imitada de todo o planeta. Após uma bem-sucedida intermediação diplomática, desembarcava no Rio de Janeiro, em 1816, a Missão Artística Francesa.

Liderados por Joachim Libreton, o grupo artístico contava com arquitetos, escultores, carpinteiros e até mecânicos. Mas, dentre eles, nenhum foi mais importante para a história do Brasil do que o pintor Jean-Baptiste Debret.

Primo do grande pintor francês Jacques-Louis David, Debret demonstrou ser um prodígio desde a juventude. Com apenas 25 anos, já era um pintor respeitado e premiado internacionalmente. Provavelmente inspirado pela mesmo ânimo que motivara Franz Post a acompanhar Maurício de Nassau, Debret deve ter enxergado no convite uma oportunidade única para retratar uma nação emergente.

Debret passou quinze anos por estas bandas, retratando tudo o que via através dos olhos. Ao retornar à França, organizou desenhos e reminiscências para lançar Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Além dos óbvios retratos paisagísticos finamente acabados, Debret procurou mostrar aos leitores o cotidiano da então florescente potência do Sul. O pintor francês dedicou especial atenção à formação cultural do povo e tentando desmistificar um pouco, para o leitor europeu, o que era visto apenas como uma terra distante e exótica no fim do mundo.

Dentre as suas contribuições para o Brasil, no entanto, nenhuma foi maior do que o símbolo máximo do país: a sua bandeira. Sim, ao contrário do que muita gente pensa, não foi um brasileiro, mas um pintor francês o responsável pelo pavilhão erguido orgulhosamente Brasil afora. Feita sob encomenda de D. João VI, a bandeira do Brasil deveria reunir traços indicativos da cultura nacional, assim como, óbvio, do poder português sobre estas terras.

Debret imaginou o retângulo natural da bandeira envolvido por verde de todos os lados. No centro, um losango amarelo serviria como berço para abrigar o brasão de Portugal.

Bandeira de Debret

Provavelmente por questões de marketing político, difundiu-se a idéia de que o verde seria representativo das matas e o amarelo, indicativo do ouro presente nas nossas terras. Nem uma coisa nem outra. Na verdade, o verde representava as cores do brasão dos Bragança. E o amarelo, em formato de losango, recordava a família dos Habsburgos, da qual descendia Dona Leopoldina, Imperatriz-Regente do Brasil.

Desde então, a bandeira passou por algumas alterações até chegar ao desenho atual. A essência, no entanto, sempre foi mantida. Até onde sei, é o único pavilhão nacional criado por um pintor de renome. Se hoje temos uma bela bandeira da qual nos orgulhamos, devemos agradecer à Missão Artística Francesa. E, claro, a Jean-Baptiste Debret.

Por isso mesmo, ao saudar a bandeira, deveríamos dizer: Vive le Brésil!

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