O “Rei do Camarote” e o Livro do Eclesiastes

Era só o que me faltava.

Na semana passada, começou a circular na Internet um vídeo sobre um suposto “empresário” de São Paulo, autoproclamado “Rei do Camarote”. Em “reportagem” veiculada pela Veja SP, Sua Alteza Real Camarotesca enuncia os chamados “10 mandamentos” da nobiliarquia da balada, como se estivesse a convidar outros novos-ricos a reproduzir seu estilo extravagante de “curtir” a noite.

Mais do que o bafafá acerca da autenticidade ou não da “entrevista”, o tema serve para ressuscitar um assunto que andava meio adormecido neste espaço: a religião. E o retorno não poderia ser em mais alto estilo: o Livro do Eclesiastes.

Compondo ao lado de Jó, dos Salmos, dos Provérbios e do Cântico dos Cânticos os cinco livros ditos “poéticos” da Bíblia, o Eclesiastes é leitura obrigatória mesmo para renega a existência divina e acha que só há este plano para ser feliz. Por integrar o conjunto de livros identificado como “Antigo Testamento”, o Eclesiastes está presente tanto na Bíblia Hebraica quanto na Bíblia Católica.

Como tantos outros livros da Bíblia, sua autoria é incerta. O primeiro versículo do livro identifica como “Pregador” o “filho de Davi, Rei de Jerusalém“. Em termos históricos, o único que se enquadraria nesse requisito seria Salomão, futuro Rei de Israel, tido por muitos como o homem mais sábio que já passou pela Terra.

Sua passagem mais conhecida certamente é a primeira pregação de seu autor: “Vaidade de vaidades, diz o Pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade!” Depois disso, numa sucessão de versos que pode parecer desoladora à primeira vista, o Pregador detona o sistema de valores sobre o qual a maior parte das sociedades se estrutura. Poder, ciência, riqueza, status social, nada disso importa. Tudo não passa de uma ilusão terrena para responder a uma pergunta fundamental: “Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?”

Dessa forma, tudo aquilo que os nouveaux riches identificam como objetivos a serem perseguidos na vida – carros de luxo, roupas de grife, mulheres bonitas e até mesmo as inacreditáveis champagnes “com foguinho” – são passatempos inúteis, porque todos estão destinados ao mesmo fim: a morte. Rico ou pobre, vestindo Armani ou roupa da C&A, toda a gente tem um encontro marcado com o tempo, e o relógio da vida não pára.

Mas, se é assim, por que se importar com as coisas terrenas? Conduziria o Eclesiastes a um conceito niilista da existência?

É justamente aí que, ao contrário do que muita gente pensa, o Eclesiastes se revela um livro de esperança. Se existem prazeres terrenos, é porque Deus assim nos concedeu. Dessa forma, assim como tudo que vem D’Ele, os bens adquiridos em vida devem ser desfrutados como dons da vida, e não como mero instrumento de deleite mundano.

É aí que reside a diferença entre tipos como o “Rei do Camarote” e um sujeito que, tendo ou não lido o Eclesiastes, tem a exata dimensão do que representam os bens materiais em nossas vidas. As coisas que conquistamos na vida não servem – ou não deveriam servir – à nossa existência senão como um modo de nos fazer pessoas melhores. E, para quem acredita na existência de um ser superior, de aproximar-se de Deus.

Sob essa perspectiva, viaja-se ao exterior para conhecer novas culturas, não para ficar postando fotos no Instagram com hashtags do tipo #euposso ou #sorryperiferia. Da mesma forma, vai-se a uma sessão de degustação de vinhos não para ostentar a compra do rótulo mais caro, mas para sentir a experiência única do vinho fermentado quando toca o paladar.

Na verdade, o vazio da existência não poderia encontrar encarnação melhor do que no “Rei do Camarote”. O que dizer de um sujeito que, incapaz de passar incólume na multidão, tem de levar seguranças particulares para uma boate? O que dizer de um sujeito que entende ser elegante vestir “as melhores roupas das melhores marcas”, e não simplesmente aquela que te faz sentir bem? O que dizer de um sujeito que acha necessário trazer gente famosa – pagando, é claro – para participar da “balada” em seu camarote, ao invés de aproveitar a noite com gente da qual genuinamente gosta?

De certo modo, o bafafá em torno da “reportagem” da Veja SP está um pouco superestimado. A despeito de o vídeo com a “celebridade” ser até certo ponto chocante pelo desnude explícito da demência que o excesso de dinheiro pode causar, a ostentação vaidosa da própria ignorância sempre esteve presente no gênero humano, em todas as épocas.

Salomão estava certo. “Nada há de novo debaixo do sol“.

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4 Responses to O “Rei do Camarote” e o Livro do Eclesiastes

  1. Avatar de Mourão Mourão disse:

    Meu caro Senador,seu texto é simplesmente sábio e por isso, com a sua permissão( que considero já concedida) vou divulgá-lo entre os meus.

  2. Avatar de vanebatista vanebatista disse:

    Parabéns pelo texto e a passagem realmente se cumpre:
    O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.
    Eclesiastes 1:9

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