O legado musical de Renato Russo

Parece que foi ontem.

Chegava eu em casa do trabalho, cansado como um burro de carga, e já ia me enfiar direto no chuveiro, para me livrar do peso do dia. Antes de seguir para o banho, coloquei minhas coisas em cima da mesa de jantar e, como de hábito, liguei a televisão na Nave Mãe para ver o que se passara no mundo. Foi quando William Bonner, então um apresentador quase estreante do Jornal Nacional, anunciou que Renato Russo morrera no Rio de Janeiro. “Infecção pulmonar”, dissera o titular do JN, eufemismo da época para informar de maneira subliminar que a vítima morrera de AIDS.

Fui tomado de um choque. Não que eu ainda estivesse na vibe da Legião Urbana. Já fazia alguns anos que as músicas de Renato Manfredini não compunham mais a trilha sonora obrigatória dos meus K7s (sim, eu sou desse tempo). Na verdade, a Legião Urbana diz mais respeito à minha transição da infância para adolescência, quando uma certa revolta do mundo e a insatisfação com a incompreensão alheia só conseguem se expressar verdadeiramente através de letras de rock contestador.

E quem não gostava de gritar aos quatro ventos, do alto de toda a sua maturidade de 12 anos, ao enxergar um certo fatalismo em relação às mazelas que perpassavam nosso olhos, “Que país é esse?

Ou, ainda, sem entender “como um só Deus ao mesmo tempo é três“, implorar para que, “ao menos uma vez“, pudesse “acreditar em tudo que existe“?

Ou encarar como dever de ofício decorar os 168 versos de Faroeste Caboclo, a contar a saga épica – e agora cinematográfica – de João do Santo Cristo?

Fazendo tudo isso, claro, sem se esquecer de guardar espaço na memória para guardar os quase cinco minutos da história romântica de Eduardo e Mônica.

Sim, aquela notícia anunciada por William Bonner fez passar um curta metragem na minha cabeça. De certa forma, com a morte de Renato Russo, morria também parte da minha adolescência. Quer dizer, aquela pequena parte da minha vida não morreu juntamente como Renato Russo, mas a morte dele me fez recordar que aquele tempo já tinha passado e não voltaria mais. Hoje, no entanto, despindo-me do espírito juvenil daquela época, minha visão é outra.

Que Renato Russo foi um ícone do pop-rock nacional, não resta a menor dúvida. Mas hoje, olhando em retrospectiva, talvez não seja arriscado dizer que o seu legado é um pouco overrated.

Renato Russo não foi o maior poeta daquela geração, honraria que cabe, sem qualquer sombra de dúvida, a Cazuza. Tampouco fez parte da banda mais bem sucedida do pop-rock dos anos 80, e aí fica a dúvida se o posto cabe aos Engenheiros do Hawaii ou aos Paralamas do Sucesso, ambas na estrada até hoje. Renato Russo não foi sequer o sujeito mais revoltado do rock nacional, título indiscutível do desconexo Lobão. Por que, então, Renato Russo e sua música ainda compõe de forma tão presente o imaginário juvenil?

A resposta certamente passa pelo tipo de música que a Legião Urbana fazia. Ao contrário, por exemplo, de canções “datadas” como O Papa é Pop e Alagados, a música de Renato Russo é atemporal. Que adolescente, em qualquer idade, não briga com os pais e vai buscar consolo no blues de Pais e filhos? Qual adolescente, em um momento de depressão, não encontra conforto na desesperança obscura de Há tempos? Qual adolescente não chora pela pessoa amada e vai afogar as mágoas ao som de Vento no litoral?

Ou seja: embora restrita a determinada faixa etária, as letras de Renato Russo falam aos adolescentes de todos os tempos. Por isso mesmo, o público cativo da Legião Urbana se renova a cada geração, garantindo a perpetuação do mito.

Renato Russo se foi. Mas, quase sem querer, conseguiu produzir música para todas as épocas. Cumpriu-se, portanto, a profecia que ele mesmo gostava de recitar:

Urbana legio omnia vincit

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