A visita do Papa, ou Francisco mostra um rosto

Depois de uns 10 dias de catarse coletiva às margens da belíssima praia de Copacabana, o papa Francisco se despediu das terras brasileiras. Deixou para trás uma legião de fiéis e seguidores encantados pelo modo simples e simpático com o qual se portou tanto nas aparições públicas como nas privadas. Tudo isso e mais o fato de nunca ter havido tamanha comoção pela visita de um argentino a terras brasileiras.

Poderia aqui desancar a organização do evento e a total incapacidade do Rio – e, de resto, do Brasil como um todo – para sediar eventos dessa magnitude. Se o bordão “Imagina na Copa…” já assusta quem tem um mínimo de senso, “Imagina nas Olimpíadas…” é capaz de tirar o sono de quem consegue antever quantidade semelhante de pessoas reunidas em uma só cidade por um mês inteiro (a Jornada Mundial da Juventude durou metade disso). No entanto, meu interesse aqui é outro. É mostrar que, do ponto de vista religioso, Jorge Mario Bergoglio finalmente começou seu pontificado.

Eleito em março passado, Bergoglio era um ilustre desconhecido para a maioria dos católicos. Salvo os argentinos que o viam às turras com os Kirchner, pouca gente tomara conhecimento da existência desse prelado portenho. Assim como Karol Wojtyla em 1978, a multidão na Praça de São Pedro respondeu ao anúncio de Habemus Papam com sonoros 2 segundos de silêncio, nos quais era possível ouvir os pensamentos dos fiéis: “Quem?!?”

Já na sacada da Basílica de São Pedro, Bergoglio deu duas importantes indicações do que viria a ser o seu mandato. Primeiro, o bom humor, ao mencionar que o colégio cardinalício fora buscar um papa “quase no fim do mundo”. Segundo, a humildade de quem reconhece as limitações de sua condição terrena ao pedir à multidão: “Orem por mim”.

Pouco a pouco, Jorge Mario Bergoglio foi sendo descoberto pela mídia e pelos católicos. Recusou-se a ter a conta do hotel paga pela Santa Sé. Abdicou da cruz e do anel de ouro, assim como todos os paramentos monárquicos que dão ao Bispo de Roma a condição de Chefe de Estado do Vaticano. E renunciou aos aposentos papais, preferindo hospedar-se no Ospizio Santa Marta.

Até aí, os gestos de Jorge Mario Bergoglio conferiam-lhe um ar simples e despojado que atraía simpatia, mas que não ia além disso. Afinal, Bergoglio não fora eleito para ser simpático, mas, como disse o Arcebispo de Viena Christoph Schönborn, para “fazer a faxina” que precisava ser feita.

De início, o pontificado não pareceu muito alentador. Afinal, o tão criticado cardeal Tarcisio Bertone permaneceu na Secretaria de Estado do Vaticano. E, com ele por lá, poderia se esperar muita coisa, menos mudanças.

Mas Bergoglio é infinitamente mais astuto do que este que vos escreve. Provavelmente, deve ter intuído que não faria bem à imagem da Igreja um papa que “chegasse chegando”, batendo o pé na porta. Era preferível tomar pé da situação e arquitetar uma forma de transição menos traumática a simplesmente tocar o terror na Cúria Romana.

Bertone não foi destituído, mas, hoje, sobrevive empalhado. Da outrora toda-poderosa Secretaria de Estado do Vaticano, não se ouve falar há bastante tempo. Todas as atenções se voltam para duas comissões nomeadas pessoalmente pelo papa: uma, para cuidar da reforma da Cúria Romana; outra, para tratar da maior dor-de-cabeça dos papas de todas as épocas, o Instituto para as Obras da Religião, ou, como é mais conhecido, o Banco do Vaticano.

Na entrevista concedida ao repórter Gérson Camarotti e em todos os discursos realizados, ao público e aos membros do clero, Bergoglio mostra uma clareza de raciocínio e uma firmeza de propósitos difíceis de se encontrar hoje em dia. Francisco parece ter a noção clara de que a Igreja perdeu a sua autoridade moral no mundo e, para reconquistá-la, deve abandonar as pretensões seculares escondidas por trás de palácios suntuosos, carros de luxo e paramentos medievais. Para voltar a ser o que era, a Igreja precisa descobrir-se pobre. Mais do que isso. Deve abraçar a pobreza ao mesmo tempo em que a combate, pois não há como haver conforto espiritual para quem passa fome. Esse foi mais ou menos o sentido do sermão que Bergoglio deu aos bispos latino-americanos.

Francisco também tocou em um ponto muito importante para a Igreja: a perda de fiéis. Mais uma vez, Bergoglio mostra ter a exata dimensão de que o abandono da Igreja pelas pessoas se dá menos por questões doutrinárias e mais pela falta de presença física de membros do clero na comunidade. A questão é fundamentalmente esta: as pessoas precisam de conforto espiritual. Se não o encontram no catolicismo – porque a igreja da cidade não tem padre -, vão buscá-lo em outras religiões. O exemplo da mulher de Buenos Aires citado pelo Papa ilustre bem essa realidade.

Bergoglio tampouco fugiu das polêmicas. Assoprou a Cúria, ao dizer que nela há “muitos homens santos”. Mas a mordeu em seguida, ao citar o penúltimo escândalo de lavagem de dinheiro no IOR. Afirmou claramente que o monsenhor envolvido no caso “obrou mal” e, portanto, deve ser punido. Para quem estava acostumado a ver as malfeitorias do Banco do Vaticano jogadas para debaixo do tapete e protegidas pela extraterritorialidade vaticana (como no caso do Monsenhor Paul Marcinkus), trata-se de uma mudança radical.

Menos de seis meses depois de assumir, Francisco já disse a que veio. Fica claro que carregar a própria mala ao avião e dispensar as mordomias do Vaticano não são exageros de uma personalidade excêntrica, mas antes um plano de governo. O rosto que o Papa apresenta não é somente o do portenho culto e simpático que anda pela cidade de carro popular, com os vidros abaixados. É o do jesuíta com uma idéia na cabeça e a Bíblia nas mãos. Com a faca nos dentes, Francisco exibe a face de quem parece pronto para enfrentar qualquer parada.

Vida longa ao Papa.

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