O saldo da semana, ou Um novo modo de fazer política

Bem, já faz mais ou menos umas duas semanas desde que manifestações populares começaram a pipocar Brasil afora, pedindo tudo e mais um pouco. Aqui o tema foi abordado em vários posts, sempre sob uma perspectiva diferente (em termos de impacto, entenda-se). Desde a grande mídia até o sistema político em seu conjunto, pouca coisa passou incólume ao terremoto popular que varou o país de Norte a Sul, desmistificando o senso comum segundo o qual o brasileiro era um sujeito tolerante e passivo, com uma capacidade aparentemente inesgotável de engolir os sapos que lhe punham goela abaixo.

Embora ainda haja uma passeata aqui e outra acolá, já não é tão arriscado dizer que a catarse coletiva que levou mais de um milhão de pessoas às ruas passou pelo seu auge. E, assim como todas as revoltas coletivas, entrou em sua inevitável fase de acomodação. Sem querer ser precipitado, talvez seja uma boa hora para fazer um apanhado geral do saldo dessas manifestações.

Do ponto de vista de quem estava nas ruas, o saldo é amplamente positivo.

Em primeiro lugar, os aumentos das passagens de ônibus – estopim do movimento – foram revogados. Em algumas cidades, houve até diminuição nos preços. Fora isso, colocou-se em pauta a discussão sobre alguns cartéis de empresas de transporte urbano a imperar em certas capitais, a fazer com que o preço da passagem seja maior do que o que deveria ser.

Em segundo lugar, o Congresso Nacional – pressionado – abandonou seu tradicional autismo para aprovar uma série de projetos simpáticos às massas. De fato, só mesmo a absoluta desconexão com a realidade pôde fazer com que os parlamentares ignorassem um manifesto assinado por um milhão de pessoas e aclamassem Renan Calheiros como Presidente do Congresso. Contrariando a regra maquiavélica segundo a qual o bem se faz em conta-gotas, os parlamentares: 1 – rejeitaram por ampla maioria a PEC 37 (que restringia os poderes investigatórios do Ministério Público); 2 – aprovaram a destinação de 75% dos royalties do petróleo para a educação, e 25% para a saúde; 3 – converteram a corrupção e outros delitos habituais de cidadãos de gravata em crime hediondo; e 4 – acabaram com o voto secreto em casos de cassação de parlamentares. Sentindo o bafo quente das ruas nos seus cangotes, os congressistas entregaram em uma semana uma agenda reclamada pela população há pelo menos uma década.

Até mesmo o Poder Judiciário, geralmente aferrado a seus pendores “contra-majoritários”, resolveu sair da letargia e decretou a prisão do Deputado Federal Natan Donadon. Graças ao fim da lenga-lenga processual, vimos hoje, pela primeira vez na nossa recente história constitucional, um parlamentar ser condenado em definitivo e – pasmem – iniciar o cumprimento de sua pena. Quem dissesse há um ano que hoje veríamos um ocupante de cargo eletivo no Congresso atrás das grades seria tachado de louco ou de nefelibata.

Nas minhas contas, o placar até agora marca uma goleada de 6 x 0 das ruas contra o sistema político. Tudo isso sem que um único tiro – bala de borracha não conta – tenha sido disparado.

E aqui chegamos no ponto talvez mais relevante de tudo isso. O país viveu a maior conturbação política de sua história em pelo menos duas décadas e não se ouviu sequer rumor de atentado às instituições. Nem sequer se sentiu no ar o discreto perfume de um legalismo militar que justificasse a retirada dos gorilas das casernas para “restabelecer a ordem”. Mesmo com o país convulsionado, o sistema político foi capaz de encontrar uma resposta que não passasse pelo rompimento da ordem democrática. Assim como no impeachment de Fernando Collor, as instituições conseguiram responder ao “teste de estresse” sem recorrer ao uso bruto da força. E a resposta não poderia ter sido melhor: a aprovação de uma série de medidas há muito tempo reclamadas.

Hoje, a democracia brasileira é mais forte do que provavelmente jamais foi. De certa maneira, o retorno à absorta normalidade anterior, na qual políticos se elegiam e só voltavam a lembrar do povo que governam na próxima eleição, tornou-se impossível. Sem a grande mídia cooptável como intermediária, o povo pode até voltar para casa. Mas, de certo modo, deixará no ar um aviso: “Cuidado, porque a qualquer momento eu posso voltar”.

Um viva às ruas.

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6 respostas para O saldo da semana, ou Um novo modo de fazer política

  1. Mourão disse:

    Excetuando a citação sobre os militares, típica do movimento estudantil do anos 1960, considero essa sua observação de suma importância: “Mesmo com o país convulsionado, o sistema político foi capaz de encontrar uma resposta que não passasse pelo rompimento da ordem democrática”. E acrescento que apesar do vandalismo de muitos oportunistas e/ou consagrados bandidos, a Polícia teve uma atuação das mais dignas, e os militares, em nenhum momento, forçaram a barra para intervir.(Lembro que foi o clamor, também das ruas, a exemplo da A Marcha da Família com Deus pela Liberdade) – na verdade nome comum a uma série de eventos ocorridos em Março de 1964 em resposta à considerada “ameaça comunista” – que estimulou a intervenção militar, a qual teve o apoio maciço da grande imprensa, empresários, hierarquia e bases da Igreja Católica e de porção majoritária de nossa classe média ,sempre indignada contra a corrupção( boa parte dela até o momento que tem oportunidade de ser corrompida ou corromper- só ver, simplisticamente, o fenômeno da pirataria de livros e CDs musicais, para não incluir produtos que pessoas mesmo honesta são obrigados ou se dizem impelidos a adquirir, a exemplo dos softwares)

    • arthurmaximus disse:

      É verdade, Comandante. Os gorilas – citação “típica do movimento estudantil dos anos 1960” – não forçaram a barra. Não porque não quisessem, mas, como o senhor bem observou, porque, em 1964, havia grande apoio popular para a sua intervenção. Hoje, o apoio seria nulo. Na verdade, uma intervenção militar – viesse de onde viesse – somente jogaria gasolina numa fogueira que já ardia em grandes labaredas. Parece que o Brasil, finalmente, aprendeu como se faz democracia. Um abraço.

  2. K disse:

    Um viva às ruas! E o que mais espero é que a saída da letargia reflita no resultado das eleições de 2014, com um belo adeus às velhas raposas da política… Bjos

  3. Mourão disse:

    Seria muito bom se a esperança da K se concretizasse, mas para tanto quem combate a corrupção e não tem nenhuma oportunidade de ser corrupto, se mantivesse íntegro quando fosse assediado para trocar o voto por favores e, também, se não fizesse como muitos que dizem” os políticos são todos ladrões, mas se ‘eu’ pudesse faria a mesma coisa, ” sem atentar para o cinismo. Seria muito bom também que categorias que podem mais do que outras combater a corrupção ( Judiciário e Ministério Público) fossem submetidas ao mesmo rigor de fiscalização do povo, e que seus membros infratores pudessem ser demitidos segundo os mesmos critérios do Executivo e do Legislativo, ou seja, mediante Processo Administrativo Disciplinar (PAD), independentemente do procedimento penal concomitante ou posterior. E vamos também ficar atentos à eleição da OAB, pois as denúncias de irregularidades, oriundas de muitos dos próprios advogados, são inúmeras. Ou seja, é preciso mais do que cobrar, é preciso praticar, naturalmente, sem nenhuma exaltação de si mesmo, nem moralismos, apenas com consciência, atos honestos, principalmente quando ,se não o fizermos, prejudicamos, realmente, o outro, Sem a pretensão da santidade.

    • arthurmaximus disse:

      Caro Comandante, veja o post sobre a questão da vitaliciedade dos membros do MP e do Judiciário que eu escrevi hoje, no qual falo sobre isso que o senhor tocou. Um abraço.

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