Quem tem dívida em dólar ou tem viagem programada para o exterior, anda meio apreensivo com o noticiário econômico dos últimos dias. Se há pouco mais de um mês era possível comprar o dólar por aproximadamente R$ 2,00, hoje a cotação do câmbio oficial já bateu R$ 2,16, e só baixou após mais uma intervenção maciça do Banco Central no mercado de câmbio.
A primeira pergunta que todo mundo está se fazendo agora é: “por que o dólar está subindo?” E a segunda é: “esse dólar nesse patamar veio pra ficar?”
Sem querer fazer trocadilhos, são duas perguntas de US$ 1 milhão. Quem souber exatamente a resposta, já pode se considerar rico. Mas, mesmo sem bola de cristal, é possível enxergar nas nuvens alguns fatores que explicam o atual ciclo de alta da moeda americana e se esse aumento veio para ficar ou é só mais uma crise passageira entre tantas que o país já viu.
Uma parcela significativa dos analistas atribui a recente alta do dólar a fatores externos, principalmente aqueles ligados à economia americana. Com alguns bons dados nas últimas semanas, a economia dos Estados Unidos estaria embarcando novamente em céu de brigadeiro, com crescimento do emprego, alta no preço dos imóveis e aumento da renda do trabalhador. Por conta disso, o Banco Central de lá poderia deixar de fazer a injeção mensal de quase US$ 100 bilhões na economia e, em um futuro não muito distante, subir os juros básicos, o que fatalmente redundaria em um dólar mais forte.
O que os analistas não explicam é por que o dólar estaria subindo de acordo com uma “tendência mundial” que indicaria a retomada do crescimento americano se esse mesmo dólar caiu em relação ao euro e ao iene. No primeiro caso, a economia correspondente – a Europa – continua a dançar bêbada ao lado do abismo. No segundo, o país luta contra duas décadas seguidas de recessão e se esforça – veja você – para produzir um mínimo de inflação que convença seus nacionais a tirar o dinheiro de baixo do colchão e gastar.
Não ignoro que o cenário externo tenha alguma influência sobre a alta recente do dólar no Brasil. Mas, a meu ver, ele vem do outro lado do mundo: a China. Com a economia chinesa começando a perder o fôlego e mostrando que anos e anos de crescimento do PIB a taxas de dois dígitos estão chegando ao fim, os preços de vários produtos consumidos pelos chineses começou a cair. Entre eles, ferro e soja, dois dos nossos principais produtos de exportação.
E daí?
Daí que nossa pauta de exportação hoje é basicamente composta de commodities como o ferro e a soja, extremamente sensíveis à diminuição do crescimento chinês. Com a queda no valor desses produtos, fatalmente a balança comercial sofre. Foi o que aconteceu neste ano, que, só nos primeiros cinco meses do ano, registrou um saldo negativo de US$ 6 bilhões, o primeiro em mais de uma década.
Fora isso, anos e anos de câmbio sobrevalorizado iriam cobrar seu preço algum dia. Não é de uma hora pra outra que uma mudança no câmbio se reflete em mais exportações do país. Sempre se acreditou que a indústria que reclamava do câmbio iria voltar a exportar no dia em que o dólar se ajustasse para cima. O que ninguém levou em consideração foi que o industrial que perdeu, no começo da década passada, mercado para seu concorrente chinês, hoje já fechou as portas. Não será ele quem salvará a balança comercial brasileira.
Pra piorar, a crescente compra de ativos em todos os setores por estrangeiros acabou aumentando inexoravelmente o nosso passivo externo. É dizer: se antes uma empresa nacional produzia e investia seu lucro aqui, essa mesma empresa sob mãos estrangeiras hoje remete lucros e dividendos para o exterior. Embora, à primeira vista, essa mudança de mãos não gerasse qualquer efeito sobre o balanço de pagamentos, no longo prazo significa que o país teria que atrair mais dólares para que os novos donos estrangeiros pudessem remetê-los às suas matrizes no exterior.
Somando todos os fatores, não é difícil entender por que o dólar anda subindo tanto. A questão, no fundo, é muito simples: falta dólar no mercado. E a tendência é de a seca externa só piorar. Com isso, responde-se à primeira pergunta.
“Esse novo patamar veio pra ficar?”
No curto prazo, é difícil de arriscar. O governo ainda tem à mão um bom leque de opções para combater a alta do dólar. No entanto, no longo prazo, a luta não significa outra coisa senão remar contra a maré. O dólar tende a subir e é possível que termine o ano ao redor de R$ 2,30. Para 2014, ano de eleição presidencial, não seria exatamente surpresa o dólar experimentar patamares ainda mais altos, como R$ 2,40 ou R$ 2,50.
Portanto, se você tem dívida em dólar ou vai viajar para o exterior, é bom se programar. Grandes emoções lhe aguardam.
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