O caso do deputado Pastor Feliciano

Desde quando foi eleito para presidir a enjeitada Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, o Pastor Feliciano tem sido notícia nos principais telejornais de todo o país. Dia sim, o outro também, lá está a figura tentando conduzir uma reunião da CDH em meio aos protestos de manifestantes e integrantes de minorias que, outrora, foram discriminadas por ele.

Que a figura do Pastor Feliciano é sem dúvida incoveniente para o cargo que ocupa, não há dúvida. Fora todo o histórico de declarações desastrosas, só o vídeo do sujeito pedindo a senha do cartão de um fiel porque, do contrário, Deus não iria atender às suas preces, bastaria para que se escolhesse outro deputado para presidir a comissão.

Mas meu propósito aqui é outro. É discutir até que ponto é lícito contestar uma decisão do Congresso a partir da interdição da própria atividade legislativa.

Inconformados com a eleição de Pastor Feliciano para a Câmara, manifestantes têm ocupado diariamente a sede da CDH. Em meio a vaias e apitos, os sujeitos simplesmente tornam impossível a discussão de qualquer assunto na comissão. Hoje, para completar o coreto, um dos manifestantes foi detido por ter xingado Feliciano de racista. Manchete assegurada para o Pastor e para seus detratores.

O grande problema dessas manifestações contra Feliciano é que elas extrapolam o limite do aceitável. Tudo bem que ninguém esteja feliz com a eleição do sujeito. Mas daí a admitir que, em nome desse inconformismo, se possa paralisar o trabalho de uma comissão da Câmara dos Deputados vai uma grande distância.

Protestos contra representantes eleitos são um bálsamo na democracia. No entanto, no momento em que se apela para expedientes anti-democráticos – como fazer barulho para impedir a reunião normal da Comissão – os inconformados se igualam ao objeto do inconformismo. Se o Pastor Feliciano é tachado de racista e homofóbico pelos que protestam, quem impede uma reunião do Poder Legislativo é o quê?

Um dos pressupostos da democracia é o respeito pela decisão da maioria. Feliciano foi eleito deputado? Paciência. Na próxima eleição, os que hoje protestam contra ele podem organizar caravanas, comícios e passeatas para impedir a sua reeleição. Só não vale impedir a atividade legislativa, porque não é assim que a democracia funciona.

O que os inconformados também não percebem é que, do ponto de vista prático, agir dessa forma mais beneficia do que prejudica Feliciano. Ao igualaram-se nas práticas anti-democráticas, os protestantes vestem no Pastor a carapuça de vítima. Em meio ao circo nas reuniões da Comissão, Feliciano posa de representante da ordem e da civilidade, quando o intuito de quem protesta é o exato oposto.

Como se isso não bastasse, o escarcéu em torno do caso do Pastor Feliciano acaba por desviar a atenção de outros casos bem mais escabrosos do Parlamento brasileiro. O presidente da Comissão de Finanças, por exemplo, encontra-se com seus bens bloqueados pela justiça. Um dos maiores agricultores do país, acusado também de ser um dos maiores desmatadores, preside a Comissão de Meio Ambiente. Pra terminar, dois condenados no processo do Mensalão ocupam assento na Comissão de Constituição e Justiça. Enquanto a mídia se concentra no barulho em torno do Pastor Feliciano, os demais políticos com contas a ajustar na justiça sorriem em silêncio.

Ou o pessoal que protesta contra o Pastor Feliciano acorda, ou daqui a dois anos perceberão que, na verdade, fizeram sua campanha para a reeleição. Descobrirão então, de forma amarga, que, enquanto divulgavam a candidatura de seu desafeto, os espertalhões de sempre conseguiram manter a boquinha na boa, sem stress. Enquanto os cães ladravam, a caravana passou.

Triste sina, a da democracia brasileira…

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2 respostas para O caso do deputado Pastor Feliciano

  1. Mourão disse:

    Não esquecer que os partidos que mais se dizem interessados pelas causas das minorias desprezaram a CDH e que manifestações que impedem, de forma anárquica ou abusiva, a livre e legal manifestação, independentemente de onde partam ou a quem ou a que se destinem, são próprias dos defensores do totalitarismo, de direiata ou de eaquerda, travestidos de democratas. Oa exemplos são muitos e um é bem recente, ou seja o caso da cubana que aqui esteve. Uma quase desconhecida tornada pesonagem digna de manchetes da grande mídia, em virtude da imbecilidade de meia dúzia de debiloides

    • arthurmaximus disse:

      Assino embaixo, Comandante. É isso mesmo. O totalitarismo não tem lado: é de esquerda e é de direita. E, tanto no caso da blogueira cubana quanto do Pastor Feliciano, as manifestações anti-democráticas vieram da esquerda. Um abraço.

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