Um furo na Teoria do Big Bang e a Teoria da Inflação Cósmica

Pouca gente se dá o trabalho de acompanhar o noticiário científico. Até porque, na maior parte dos casos, as matérias que saem nessa seção dificilmente têm alguma aplicabilidade prática ao cotidiano da maioria. Mas, para quem ainda rumina questões existenciais sobre “De onde viemos?”, “Pra onde vamos?” e “Será que lá tem Internet?”, as pesquisas sobre o Universo ainda são um prato cheio para reflexões.

Outro dia, anunciou-se que o telescópio espacial Planck, da Agência Espacial Européia, conseguiu “tirar um foto” do Universo ainda bebê, com apenas 380 mil anos de idade. Na verdade, não se trata exatamente de uma foto, mas de uma reprodução em imagem de uma imensa quantidade de dados compilados pelo telescópio. Mal comparando, é como se os cientistas “enxergassem” uma paisagem qualquer e depois a “pintassem” no computador, para que o público leigo possa observá-la.

Universe

Da “foto”, foi possível observar o primeiro registro de luz existente no cosmos desde a sua criação. Literalmente, a descoberta lança luzes sobre as origens do Universo. Mas, ao mesmo tempo, revisita dúvidas inquietantes.

Hoje em dia, todo mundo mais ou menos aceita a Teoria do Big Bang como algo certo. Quer dizer: como algo que se tem certeza de que está certo, só que, por frescurites científicas, ainda não foi dado como um fato provado. O buraco, no entanto, é muito mais embaixo.

Segundo a Teoria do Big Bang, toda a matéria existente no Universo esteve, em algum momento remoto do passado, condensada numa sopa primordial de partículas. De repente – ninguém sabe nem como nem por quê – essa sopa explodiu, dando origem a tudo aquilo que se passa diante dos nossos olhos.

Beleza. Qual o problema?

O problema é que, segundo os modelos universalmente aceitos de interação das partículas, um evento como o Big Bang teria que necessariamente espalhar matéria de maneira uniforme pelo espaço. E o que há é justamente o contrário: há variações gigantescas em todas as regiões observáveis do espaço.

Imagine, por exemplo, você soprando uma bexiga. O ar soprado para dentro do balão espalha-se de maneira mais ou menos uniforme, fazendo com que a bexiga “inche” por igual. Assim, cria-se um balão quase redondo, sem ondulações ou depreciações em sua superfície. Guardadas as devidas proporções, era isso que deveria ocorrer com o espaço. Só que, na bexiga cosmológica, há vales e montanhas espalhados por todos os cantos. Ou, melhor dizendo, há grandes espaços vazios, onde não há nada, e espaços onde se acumulam planetas, estrelas e outros corpos celestes.

Para resolver essa questão, alguns cientistas desenvolveram a chamada “Teoria da Inflação Cósmica”. Segundo essa teoria, no momento seguinte à explosão do Big Bang, houve um breve período de crescimento exponencial do Universo. Esse crescimento exponencial teria derivado de algo como uma força de atração gravitacional repulsiva, ou seja, a matéria, ao invés de se atrair, repelia-se. Logo após, o Universo teria passado por um período de super-resfriamento, o que teria lhe dado a “aparência” atual.

Essa ilustração mostra mais ou menos como teria acontecido a inflação cósmica:

Inflação Cósmica

Só que, como toda boa teoria física, se a inflação cósmica resolve alguns problemas da Teoria do Big Bang, cria outros, ainda maiores. O que a teria causado? Por que a inflação se passou do modo como se passou e, subitamente, “estancou”?

Enquanto essas perguntas não forem respondidas, o Big Bang continuará sendo apenas o que seu próprio nome indica: uma teoria.

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3 respostas para Um furo na Teoria do Big Bang e a Teoria da Inflação Cósmica

  1. Leonardo disse:

    Ótimo texto. Aconselho a ler esse texto que fala mais sobre os problemas sérios da Teoria da Inflação Cósmica:
    http://cosmologyscience.com/cosblog/nice-article-explaining-inflations-problems/

  2. Giovana disse:

    Eu. Gostei do seu texto me ajudou a entender muita coisa .Vc é professor de ciências?

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