A morte de Hugo Chávez

Em 1981, Gabriel García Marquez lançou uma obra que se tornaria um best seller. No livro, um jovem chamado Santiago Nasar é acusado por uma moça chamada Ângela Vicário de desonrá-la. Decididos a vingar a irmã, Pedro e Pablo Vicário decidem matar Santiago. Todo o vilarejo fica sabendo da premeditação do homicídio. Mas, movidos pelo sentimento de que “a fatalidade torna-nos invisíveis”, ninguém se coça para evitá-lo. Para todo o sempre, Crônica de uma morte anunciada ficaria no imaginário coletivo como sinônimo o suspense recatado de algo amplamente esperado. Sem a mesma qualidade literária e com muitos menos recursos estilísticos, foi o que se passou nos últimos dois meses na Venezuela.

Durante ano e meio, Hugo Chávez – o sujeito que emendou e remendou a constituição venezuelana uma dezena de vezes para se imortalizar no poder – descobriu a finitude da vida. Acometido por um câncer, Chávez foi forçado a deixar a cadeira que tentou tomar com um golpe em 1992 e a qual conquistou nas urnas em 1998. Ao deixar a Venezuela para aquele que seria seu último período de tratamento contra a doença, Chávez deixou também uma representação farsesca, no qual seus outrora figurantes, catapultados para o centro do palco, transformaram uma tragédia em teatro do absurdo.

Primeiro, os dois principais coadjuvantes – Nicolas Maduro e Diosdado Cabello – travaram uma luta intestina e silenciosa para ver quem assumiria o papel do protagonista. Melhor para Maduro, que contou com o dedaço de Chávez e o apoio surdo da cúpula militar do país.

Para justificar a assunção do vice de um presidente que nem sequer assumira o mandato, organizaram um segunto ato, no qual a constituição venezuelana foi transformada em tapete, para os outros passarem por cima. Indicado diretamente por Chávez, sem nem ao menor ter sido eleito em uma mesma chapa, Nicolas Maduro usurpa o poder presidencial da Venezuela desde 10 de janeiro.

O público, no entanto, pagara pra ver o ator principal em cena. Se dependesse dele, os dois figurantes poderiam muito bem ir se danar. Para acalmar a platéia, prometeram que ele voltaria. Quando? Ninguém disse. Mas ia se levando com a barriga, pra ver se a audiência simpatizava com o coadjuvante no papel principal.

Faltou combinar com os russos. Ao contrário de melhorar, Chávez só piorou. Por meio de uma sucessão de tentativas canhestras de disfarçar o estado terminal do presidente eleito, a cúpula chavista insistia em dizer que Chávez seguia no comando do país. Como um sujeito entrevado numa cama de UTI lutando por sua vida poderia fazer isso, só os chavistas podem explicar.

Em desespero com a impaciência da platéia, os coadjuvantes chegaram até a ressuscitar uma velha personagem: o “Imperialismo Norte-Americano”. Seriam os americanos – sempre eles – os responsáveis pela doença de Chávez. Os atrapalhados do palco ficaram de explicar, contudo, qual tecnologia militar é capaz de produzir de forma tão rápida e precisa um câncer am alguém.

Hoje, a farsa venezuelana chega ao fim. Nem mesmo o poderoso esquema de sigilo montado ao redor da doença de Chávez sobrevive a uma exposição retrospectiva.

Salvo um ou outro detalhe de bastidor, é possível concluir que quando Chávez voltou a Cuba em março do ano passado para o terceiro ciclo de tratamento, já era um homem condenado. Foi em busca não de salvação, mas de uma sobrevida que lhe garantisse concorrer nas eleições presidenciais de outubro.

Quando disse à nação em 9 de julho que estava totalmente livre da doença, sabia que estava mentindo. Não queria que o câncer atrapalhasse suas pretensões eleitorais e – o que é mais importante – a sobrevivência do chavismo.

Pouco mais de um mês depois de eleito, anunciou aos seus compatriotas que o câncer “voltara”. Ao se despedir, disse que, “caso acontecesse alguma coisa”, o povo deveria votar em Nicolas Maduro para sucedê-lo. Na verdade, estava apenas querendo ganhar tempo, de modo a que se chegasse até o dia da posse (10 de janeiro). Com isso, era só arquitetar um esquema segundo o qual Maduro seguiria na presidência enquanto Chávez estivesse em tratamento. Tempo suficiente para que a força eleitoral e o carisma de Chávez se transferisse ao seu vice e garantisse a continuidade de sua “Revolução Bolivariana”.

Quando Chávez retornou a Caracas, isso não era sinal de que o tratamento tivera efeito. Provavelmente, a essa altura já recebera o aviso dos médicos de que não havia mais nada a fazer. O Hospital Militar de Caracas nunca foi referência em tratamentos contra o câncer. Se houvesse efetivamente como salvar o paciente, Chávez seguiria em Cuba, onde os médicos têm experiência nesse tipo de caso. Chávez voltou para Caracas para morrer em seu país e, assim, imortalizar o mito do estadista que sacrifica sua própria vida pela pátria. Tal como Getúlio Vargas, Chávez será sempre lembrado na Venezuela como o “Pai dos Pobres”, um mito no qual todos os políticos populistas dirão se espelhar

Chávez se foi. O chavismo continuará?

Por algum tempo, é provável que sim. Mas é difícil que tenha vida longa. O grande problema das estratégias políticas populistas é que elas se centram no culto à personalidade do governante. Se a exaltação de líder serve de bálsamo enquanto o sujeito está no poder, torna-se veneno quando ele se vai. Por mais que queiram imitá-los, sempre haverá alguém a reclamar: “Ah, mas ele não é como Chávez…”. E, a julgar pela qualidade cênica dos coadjuvantes que Chávez colocou no palco, não se pode esperar que a peça fique em cartaz por muito tempo.

Incredulidade por incredulidade, nem Gabriel García Marquez conseguiria escrever um roteiro tão fantástico…

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2 respostas para A morte de Hugo Chávez

  1. Mourão disse:

    Não vou entrar no mérito, apenas reconhecer que é um artigo jornalístico muito bem escrito e que poderia ser divulgado em qualquer veículo respeitável da mídia.
    Você é foooorte, Senador.

  2. Mourão disse:

    Uma coisa considerei amirável em Chávez a coragem demonstrada ao conviver com a morte. Em nenhum momento sucumbiu a perspectiva do fim próximo e abandonou seus projertos políticos. Colocou seus ideais, dos quais discordo na maiora dos casos, acima de suas agruras pessoais. Morreu como um homem de coragem.

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