A morte de Tancredo, ou Brasil-Venezuela: “Eu sou você, amanhã”.

Nesses dias em que um presidente moribundo é mantido no cargo à custa de aparelhos e de um esquema de segurança que rivaliza com o que havia de mais sinistro nos regimes totalitários do leste europeu, é impossível não recordar de um triste episódio da história nacional: a morte de Tancredo Neves.

O ano era 1985. Para quem não lembra, o Brasil vinha de de 21 anos de governos de gorilas. O último presidente eleito democraticamente, Jânio Quadros, renunciara ao mandato apenas oito meses depois de tomar posse, lançando o país numa crise político-institucional que, três anos mais tarde, ajudaria a fomentar o golpe de 64. Pela primeira vez em mais de duas décadas, o país teria um governante civil no Planalto.

O que ninguém – aliás, o que só gente muito bem informada – sabia era que Tancredo era um homem de muita idade e pouca saúde. Desde a campanha no Colégio Eleitoral, Tancredo sentia fortes dores abdominais. Tudo recomendava que procurasse um médico, mas Tancredo e sua entourage temiam que qualquer boato sobre a sua saúde eriçasse os pêlos dos gorilas a voltar para as casernas. A eleição de um presidente condenado pela saúde seria um bom pretexto para virar a mesa novamente e ganhar, quem sabe, mais alguns anos de poder.

Mantendo-se à base de doses cavalares de analgésicos, Tancredo passou pelo sufrágio indireto relativamente incólume. No dia 15 de janeiro de 1985, reforçado pelos 480 votos conseguidos no Colégio Eleitoral, Tancredo parecia até um menino. Como diria Jamelão, ficara que nem pinto no lixo.

Talvez confiantes no efeito anabolizante da eleição sobre a saúde daquele velhinho de 75 anos, seu staff resolveu levar a temeridade às raias do paroxismo: ao invés de levar Tancredo para um exame regular, para ver o que se passava, resolveram levar o pastiche adiante até a posse, dois meses depois. Queriam garantir a efetiva tomada de poder. Después veremos, devem ter pensado os “çábios” de então.

Tancredo não resistiu. Na véspera da posse, o país, incrédulo, mal podia acreditar no que via no noticiário. O primeiro civil eleito para a Presidência da República internara-se de emergência no Hospital de Base de Brasília.

De início, suspeitava-se de diverticulite. Durante a operação, Pinheiro da Rocha, cirurgião encarregado de operá-lo, levanta uma alça do intestino delgado e observa um calombo do tamanho de um limão-galego. Não era um divertículo. Era um tumor.

Para piorar, a UTI do Hospital de Base de Brasília estava em reformas, com parte do ambiente demolido. Fora a idade e o estado de saúde precário, Tancredo seria vitimado pelas más condições do local onde se operara.

Receosos, os partidários de Tancredo pensaram no que fariam no dia seguinte, 15 de março. Como Tancredo ainda não tinha tomado posse, nem ele nem seu companheiro de chapa, José Sarney, eram respectivamente Presidente e Vice-presidente da República. Longe de ser uma “formalidade” – como agora alegam os chavistas – a solenidade de compromisso de fiel exercício do cargo e respeito às leis do país é condição sine qua non para que o sujeito tome posse do cargo para o qual foi eleito. Sem isso, não pode governar.

Do ponto de vista da Constituição, a solução mais correta seria dar posse ao Presidente da Câmara dos Deputados. Mas os militares não queriam ver Ulysses Guimarães nem pintado de ouro. Os milicos sempre o identificaram como “radical”. Com ele na presidência, poderia haver um surto de caça às bruxas contra os membros do antigo regime.

Esperto como uma raposa, Ulysses sabia que se assumisse poderia suscitar os mais primitivos instintos na linha-dura golpista. Ressabiado, chamou Affonso Arinos e o futuro ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, para uma reunião. Não queria assumir o cargo e depois dar pretexto para um golpe, mas, por outro lado, também não o queria fazer de modo aberto. Affonso Arinos saiu-se com a tese de que Sarney não era “vice-presidente de Tancredo”, mas “vice-presidente da República”. Leônidas Pires Gonçalves encampou a tese, e Arinos foi em rede nacional explicar à nação que José Sarney assumiria o cargo de Tancredo no dia seguinte.

Com isso, produziu-se uma usurpação: José Sarney, membro do PFL, egresso da Arena e do PDS, lugar-tenente da ditadura por toda a sua existência, assumiria no lugar de um presidente que não tomara posse. Com seu passado, Sarney jamais daria lugar a algo semelhante a uma caça às bruxas. Pelo contrário. Tentaria acomodar os interesses de ambos os lados, de modo a que se fizesse uma transição pacífica.

Por cinco longos anos, Sarney conduziu o país assentado em um “arrumadinho” constitucional. Se houvesse algum futurólogo presente à posse de Sarney, certamente deve ter olhado para a Venezuela e se lembrado de uma propaganda de muito sucesso na época:

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3 respostas para A morte de Tancredo, ou Brasil-Venezuela: “Eu sou você, amanhã”.

  1. Alexandre disse:

    Interessante a análise. O problema é que a natureza dos dois processos é bem diferente. No Brasil, Tancredo foi eleito por um colégio eleitoral; toda a campanha pelas Diretas Já deu com os burros n’água, pois os milicos não queriam largar o osso tão facilmente. Tancredo tinha a simpatia popular? Sim, na condição de representante da oposição ao regime vigente. Mas não foi eleito pelo povo e, como se diz por aí, simpatia não é amor.

    Chávez, por outro lado, foi eleito pela população em eleições consideradas limpas e sem manipulações. As gigantescas manifestações de apoio a ele são um recado claro da população: nós o elegemos e não queremos que vocês da oposição deem um golpe aproveitando-se da situação. O resto, como diria conhecido jornalista, é o luar de Paquetá.

    • arthurmaximus disse:

      Concordo em gênero, número e grau, Alexandre. Na verdade, sou até mais radical: pra mim, Tancredo jamais ganharia uma eleição direta pra presidente. De certa forma, a morte prematura, antes de assumir o cargo, contribuiu para a criação de um mito ao redor de seu nome. Mas sinceramente não creio que ele fosse fazer coisa muito melhor do que Sarney. No entanto, o paralelo entre Tancredo e Chávez dá-se quanto ao fato de que o estado de saúde de ambos (e a posterior morte, pelo menos no caso do Tancredo) deu lugar a usurpação de poder. Nos dois casos, Sarney e Maduro assumiram contra disposições constitucionais expressas e mantiveram-se no poder sem possuir qualquer respaldo democrático para tanto. Um abraço.

  2. Pingback: A demissão do Comandante do Exército, ou A necessária imposição do poder civil aos militares | Dando a cara a tapa

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