A prorrogação da entrada em vigor do AO no Brasil

Quem acompanha o blog deve ter lido o post que escrevi sobre o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, previsto para entrar em vigor a partir de 1º de janeiro de 2013.

Em linhas gerais, defendi a tese de que o Acordo era uma grande besteira. Primeiro, porque não resolvia graves problemas da língua de Camões e de seu ensino (a hifenização, por exemplo). Segundo, porque criava outros problemas adicionais (confusões com a queda dos acentos diferenciais, como em “pára”/”para”, por exemplo). Terceiro, porque a grande razão de ser do AO era econômica: beneficiar as editoras com uma “única” edição, sem a necessidade de publicar uma versão “brasileira” e outra, “portuguesa”.

Além disso tudo, pesava o fato de que o AO promovia o “emburrecimento” da português. É dizer: constatada a incapacidade de ensinar-se bem o vernáculo, a solução seria “diminuir os problemas”. Ao invés de resolver a questão fundamental – qualificar-se melhor os professores de português a própria população -, o AO vende a “saída fácil” da “simplificação” da língua, como, por exemplo, o caso da extinção do trema.

Se no Brasil a questão já suscita problemas – há blogueiros como Juca Kfouri que simplesmente se recusam a acabar com o acento diferencial de “pára”/”para” – em Portugal a confusão alcança as raias do paroxismo.

Rui Duarte, um professor e estudioso lusitano da língua portuguesa, relata casos assombrosos. Como ele mesmo relatou, em Portugal “a face mais visível do AO é a supressão das consoantes ‘mudas’, que mantém influência na pronúncia do Português não-brasileiro, abrindo vogais átonas, sendo que tendencialmente estas se fecham, ao contrário do vocalismo brasileiro”. É o caso, por exemplo, dos vocábulos “fato”/”facto”, “acção”/”ação”, “óptica”/”ótica”, e por aí vai.

Segundo Rui Duarte, na dúvida, os periódicos portugueses estão simplesmente “sumindo” com as consoantes diacríticas, levando a casos verdadeiramente esdrúxulos, como por exemplo, “oção” (quando se queria dizer “opção”) e “intato” (quando se queria dizer “intacto). Rui relata ainda o caso de uma tese de mestrado na qual o estudante disserta sobre os “impatos” da formação inicial e da supervisão pedagógica na Educação.

Fora os casos esdrúxulos, que criam vocábulos inexistentes na língua oficial, há casos em que a “acordização” radical leva a verdadeiras mudanças no entendimento. Cite-se o caso de “inato”, quando na verdade se queria dizer “inapto”.

Aqui no Brasil, depois da pressão de alguns senadores da República, o Governo resolveu baixar um decreto prorrogando a entrada em vigor do Acordo Ortográfico para 2016. Assim, a escrita “dual” – antes do AO/depois do AO – continuará legalmente permitida pelo menos até 31 de dezembro de 2015.

Mas, conhecendo os costumes da política brasileira, não é demais imaginar que a prorrogação do AO é apenas o primeiro passo dado para seu sepultamento. Prorrogações produzidas assim normalmente costumam adquirir o status de sine die. Com o tempo, a ficha certamente vai cair e o Governo perceberá que o AO é uma grande enfiada de pé na jaca.

Infelizmente, até lá o AO terá feito vítimas indefesas. Com a pressão do Enem e dos vestibulares, a maior parte dos livros didáticos já se encontra “acordada”. Portanto, vai ser difícil ensinar pra meninada de hoje em dia que houve um tempo no qual se comia “lingüiça”, e não “linguiça”.

Mesmo assim, melhor salvar o que ainda resta do nosso pobre vernáculo do que perder boa parte de sua riqueza com o Acordo Ortográfico. As gerações futuras agradecem.

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