Guardiola na seleção, ou Por uma revolução no futebol brasileiro

Mano caiu. Assim como manga madura, caiu na hora errada; tinha que ser tirado há muito tempo. E, como sempre acontece quando se esperam as frutas caírem, o estrago que causam é sempre maior do que o normal e o resultado quase sempre é benefício nenhum para o sujeito (normalmente a fruta está podre).

Mano Menezes vinha tendo seu trabalho elogiado por alguns comentaristas, é verdade. Tostão, por exemplo, dizia que ele vinha tentando adaptar o jogo da seleção ao futebol moderno jogado por alguns times europeus, Barcelona à frente. Sem um centroavante fixo, o time ganha em mobilidade e em consistência ofensiva. Sem volantes estritamente brucutus, o meio de campo ganha na criação e na qualidade do passe, favorecendo o surgimento de mais chances reais de gol.

Do outro lado, nada disso funciona se o time não for arquitetonicamente sincronizado. E foi aí que Mano errou. Um time composto por meios de campo habilidosos e quatro meias-atacantes pode até fazer mais gols, mas em compensação corre o risco de tomar uma quantidade ainda maior. Nesse esquema, a fragilidade da defesa só é mitigada com a coordenação e a movimentação precisa dos homens de frente, que devem avançar quando têm a bola e recuar quando estiverem sem ela. Do contrário, o time toma gols de pelada, como o segundo gol da Argentina no Superclássico das Américas.

Mano errou, portanto, ao tentar implementar um esquema moderno de jogo, mas não conseguir fazer com que o time o seguisse à risca. Pesou, nesse ponto, os erros de convocação e a falta de capacidade de montar o time. Nada explica, por exemplo, as convocações de Ronaldinho Gaúcho e Kaká, sendo que este nem sequer fica na reserva do time onde joga. Em mais de 100 jogadores convocados, Mano não conseguiu formar uma seleção com somente 11. Esse foi seu grande erro.

Entretanto, se Mano caiu como uma manga, nada se impede que se tente fazer do limão uma limonada.

Quando Mano caiu, a primeira sensação foi de surpresa. A segunda, imediatamente em seqüência, foi de dúvida. Quem será o novo técnico da seleção?

Nessa hora, quem acompanha e gosta do futebol bem jogado, sonhou com a redenção do outrora “melhor futebol do mundo” com a chegada de Pep Guardiola, ex-treinador do multicampeão Barcelona. Tirando um ano sabático em Nova Iorque, Guardiola conseguiu nos 3 anos e pouco em que treinou o Barça, transformar uma potência regional em um modelo de futebol. Guardiola mostrou ao mundo que era falsa a proposição segundo a qual, para ganhar, era preciso jogar feio. Sim, é possível ganhar dando espetáculo.

Tudo bem que quando se tem Messi no time, a coisa fica mais fácil. Mas ele sozinho não resolve. Vide os pífios resultados da Argentina nos campeonatos por aí afora, mesmo com Messi ostentando a camisa 10 alviceleste.

Pode-se argumentar, como argumentou o atual presidente da CBF, que o Brasil foi pentacampeão do mundo com técnicos brasileiros.

Trata-se de um argumento falacioso. Ganhamos os três primeiros campeonatos quando nossos jogadores e nossos treinadores eram, de fato, os melhores do mundo. Daí pra frente, foi uma sucessão de lambanças. Vencemos em 1994 com um time retrancado como um legítimo ferroglio italiano. Sem Romário, não chegaríamos a lugar nenhum. De forma parecida, ganhamos em 2002 no mesmo estilo de retranca, com Rivaldo e Ronaldo fazendo o mesmo papel que Romário fizera em 1994.

Nos dois casos – não custa lembrar – ganhamos duas das piores copas da história em termos de nível técnico. Basta dizer que em 1994 vencemos nos pênaltis e em 2002 jogamos uma semifinal contra a Turquia (!!!), tendo do outro lado um confronto entre Alemanha e Coréia(!!!).

A verdade é que, ao lado da queda do nível do futebol brasileiro, caminha de mãos dadas a queda do nível dos técnicos nacionais. Coincidência ou não, quase todos os ex-treinadores da seleção brasileira dos últimos anos estão desempregados. Parreira, Zagallo, Felipão, Leão, Dunga e agora Mano estão sem mercado até no Brasil.

Curiosamente, o favorito para assumir o cargo é Felipão, o mesmo que deixou o Palmeiras – último time que treinou – às portas do rebaixamento.

Seleção é lugar para os melhores, é o que eu sempre digo. Se o melhor treinador do mundo atualmente é um estrangeiro, por que não o contratar?

Infelizmente, o corporativismo dos treinadores brasileiros e o pachequismo idiota de parte da imprensa brasileira dificilmente permitirá que Guardiola assuma o comando da amarelinha.

É uma pena.

Guardiola gosta de dizer que aprendeu a jogar e a treinar times de futebol assistindo à seleção brasileira jogar. Quem diria que, hoje, estaríamos nós implorando para que ele nos ensinasse o que esquecemos?

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