Ontem a ANS suspendeu a venda de 301 planos de 38 operadoras de planos de saúde. Já não era sem tempo. Quem tem um sabe os desgostos por que já passou: problemas para marcar consultas, dificuldades para realizar exames, baixo número de credenciados, e por aí vai. Isso para não falar em cobranças indevidas e alterações inopinadas na rede de atendimento.
Isso não vem de agora. Desde a metade dos anos 90, passando pela virada do milênio e entrando o século XXI em franca decadência, os planos de saúde perdem cada vez mais a condição de diferencial na qualidade de vida do cidadão. Em muitos casos, o atendimento dos planos não se distancia muito do dispensado à população que precisa da rede pública. A mercantilização da saúde já atingiu nível tal que, hoje em dia, para conseguir um tratamento decente de forma rápida, só pagando particular.
Não à toa.
Primeiro, saúde é um bem realmente caro. Planos que cobram R$ 100,00 de mensalidade prometendo exames ilimitados, UTI sem restrição de dias e tomografias a cada três meses claramente não podem se sustentar no longo prazo. Vivem da venda maciça. Como a rede não acompanha o crescimento da demanda, o que sobra é espera na fila e mau atendimento nos hospitais.
Segundo, médico é um profissional como qualquer outro. Gosta da profissão, mas precisa encher a geladeira e pagar as contas no final do mês. Quer fazer isso e, na medida do possível, ter tempo para cuidar da pele e dos filhos. Se o sujeito pode cobrar por uma consulta particular, porque tomar um dia inteiro com consultas de planos? Numa conta por baixo, o sujeito ganha R$ 250,00 por consulta particular. Para receber o mesmo montante, teria que atender cinco pacientes de plano de saúde. Ou seja: para ganhar R$ 500,00 por dia, ele pode: 1) atender dois pacientes particulares; ou 2) atender dez pacientes conveniados. Qual das duas opções ele irá escolher?
Mas a questão que tenho a propor é outra. O problema dos planos de saúde talvez seja apenas a ponta do iceberg que afunda de um fenômeno endêmico no Brasil conhecido como “Síndrome do Condomínio”.
A Síndrome do Condomínio tem um grupo de risco bem identificado: a classe média. Quem vive no andar de baixo, sofre com a violência, o ensino precário nas escolas públicas e com um sistema de saúde deficiente. Após atingir certo padrão de riqueza, o sujeito compra uma casa em um condomínio particular, colocas os filhos em escolas particulares e adquire um plano de saúde.
Pronto. Como um passe de mágica, o sujeito pensa que se desligou de todos os problemas do Brasil. Todas as mazelas que atormentam o restante da população tornam-se apenas uma chamada no Jornal Nacional ou um argumento de campanha eleitoral. Para ele, é como se o Brasil tivesse se tornado um país de primeiro mundo. Com a vantagem de não sofrer com o frio europeu.
A questão, como quase tudo nessa seara, é que a Síndrome do Condomínio é uma modalidade de auto-engano. Os problemas não sumiram. O sujeito apenas conseguiu desviar deles. Mas, mais cedo ou mais tarde, eles voltam a atormentá-lo, seja na forma de assaltos à mão armada, seja na forma de ensino deficiente nas escolas particulares ou, como é o caso agora, do péssimo atendimento dos planos de saúde.
O pior efeito da Síndrome do Condomínio é a alienação de uma parcela da sociedade que deveria ser a mais ativa politicamente. Os ricos passam bem em qualquer tempo, faça chuva, ou faça sol. E os pobres se danam a qualquer época, seja tempo de vacas magras, seja tempo de vacas obesas. É o cidadão de classe média o sujeito mais propenso a sofrer interferência direta na sua qualidade de vida por conta as políticas governamentais. Lavando as mãos, pensando que se desligou dos problemas do Brasil, o sujeito de classe média acaba por contribuir para a mediocridade política e à perpetuação de deformidades sociais, como a blindagem de automóveis de cidadãos comuns.
Se a Síndrome do Condomínio for combatida a sério, o sujeito vai descobrir que os problemas do país não se resolvem desviando-se deles. Ou o cidadão briga para mudar esse estado de coisas, ou vai continuar sofrendo na pele os problemas que ele pensa que não o atingem mais. É o que eu espero que aconteça a partir desse episódio dos planos de saúde.
Quando isso acontecer, aí, sim, o país vai começar a ir pra frente. É pagar pra ver.
Belo texto, especialmente bom para a reflexão de todos nós em tempos de eleição. Bom para repensar, especialmente, quais os motivos que devem nos mover na escolha do candidato que merece nosso voto. Bjos
Obrigado, minha cara. E não deixe de ver o texto do Josias que publiquei hoje, também. Vale a pena. Beijos.