O pacote econômico francês

Estivesse François Hollande em um duelo de esgrima contra o tal do mercado, certamente poderia gritar: Touché!

Nesta semana, a França apresentou um pacote econômico. Não de “austeridade”, como fizeram, por exemplo, Portugal, Espanha e Grécia. Não. O pacote de Hollande visa à “recuperação econômica” da França.

Semântica?

À primeira vista, pode até parecer. Afinal, “austeridade” já virou palavrão no contexto europeu, a essa altura do campeonato. Com Portugal paralisado, a Espanha se desintegrando e a Grécia indo pelo ralo, a última coisa que o cidadão francês gostaria de ouvir é que o Governo decidira tomar o mesmo caminho que conduziu todos esses países à convulsão social.

Só para recordar, aos países integrantes do PIIGS, aplicou-se o receituário clássico liberal: cortes no orçamento, aumento de impostos e retirada de direitos sociais conquistados. O problema é que todas essas medidas só tem um destinatário final: o pobre coitado, assalariado, que depende do Estado para ter um padrão de vida decente. Primeiro, cortam-se os serviços. Depois, aumentam-se os impostos do sujeito que ficou sem serviços.

A promessa dos países que seguem a receita é a mesma de sempre: “restabelecimento” da confiança dos mercados e saída ordenada da crise no longo prazo.

Mas quando se observa as medidas tomadas pelo presidente socialista francês, bem se vê que o que se passa na antiga Gália é muito diferente do receituário ministrado para os países mais pobres da Zona do Euro.

Em primeiro lugar, Hollande mudou o destinatário das chicotadas. Se nos outros países a classe média e a classe pobre costumam pagar o pato, na França quem o pagará serão os mais ricos.

Um terço do aumento da receita esperada pelo governo francês (EU$ 30 bilhões) virá do boçal aumento do imposto sobre a renda dos mais ricos. Os que ganham mais de EU$ 1 milhão por ano pagarão 75% de imposto. Os que ganham mais de EU$ 150 mil tomarão uma tunga de 45%. Outro terço virá do aumento dos impostos sobre a receita de grandes empresas, assim como dos dividendos por ela pagos a quem tem muita bufunfa. Somente o último terço virá na forma de verdadeiro sacrifício: a demissão de servidores públicos.

Mesmo com a demissão de servidores, no entanto, o governo socialista francês não tocou em um só direito social garantido à população. Essa é talvez a principal diferença do pacote de Hollande para os demais pacotes impostos pela Troika. Nos PIIGS, a crise levou – como esperado – ao aumento do desemprego. Nessa hora de dificuldade, se o governo resolve cortar serviços como saúde e educação, o sujeito fica literalmente ao relento. E aí só lhe resta a revolta.

Outro ponto a ressaltar no pacote francês foi o de não mexer nos salários dos cidadãos e dos servidores públicos. Claro, teve gente demitida. Mas quem manteve o emprego continuou ganhando a mesma coisa. Em Portugal, por exemplo, cortaram até o 13o. salário do povo. Salvo engano, chegaram até ao cúmulo de reduzir nominalmente os salários pagos pelo serviço público em 20%.

Em um primeiro momento, o Governo economiza dinheiro, diminuindo o déficit. O efeito, contudo, é passageiro, porque o corte de salário implica diminuição da renda disponível. Reduzindo-se a renda, diminui-se a circulação de dinheiro. Com menos dinheiro circulando, cai a atividade econômica. E, caindo a atividade econômica, cairá a arrecadação orçamentária, aumentando o déficit que se pretendia diminuir.

Hollande fugiu de tudo isso. Mostrou, à Europa e ao Mercado, que há outro caminho a seguir. Um caminho pelo qual quem ganha mais, paga mais. E quem perde mais, não vai à sarjeta.

Não se espante se, nos próximos dias, o “Mercado” resolver se vingar, aumentando a taxa de juros cobrada dos títulos franceses. É natural. É assim que ele funciona. Daqui a alguns meses, no entanto, se a atividade econômica se recuperar, Hollande terá vencido a maior batalha de sua vida.

E a Europa, enfim, poderá enxergar uma luz no fim do túnel.

Anúncios
Esse post foi publicado em Economia, Política internacional e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.