Les nouveaux riches

Um dos males da humanidade, que acomete todos os povos, em todos os tempos, são os nouveaux riches. Por onde você anda, em qualquer lugar que você esteja, logo aparece um protótipo perfeito e bem acabado do nouveau riche. Mas o que é que isso significa?

Nouveau riche é uma expressão francesa. Em português, seria traduzida literalmente como “novo rico”. Do ponto de vista puramente econômico o novo rico seria o sujeito que não nasceu em berço de ouro, ou, por outro lado, o sujeito que alcançou a riqueza suprema na sua própria geração. Em suma, nouveau riche é o sujeito que, de uma hora pra outra, descobre-se estupidamente rico.

Até aí, problema zero. Afinal, vivendo em um sistema capitalista, ganhar dinheiro está longe de ser um pecado capital. Antes de ser repudiado, o enriquecimento é glorioso, como diria Deng Xiaoping. Crescer financeiramente na vida é antes um objetivo a ser perseguido do que um mal a ser evitado. O problema só aparece, na verdade, quando o dinheiro chega.

Com o dinheiro derramando pelos bolsos, é natural um certo deslumbramento. Coisas que antes pareciam distantes, inatingíveis, sonhos de novela das 8, de repente tornam-se possíveis, realizáveis, aproximam-se a ponto de estarem ali, ao alcance da mão e do cartão de crédito. Tudo aquilo que o sujeito sempre quis da vida agora ele pode ter. E é aí que surgem os problemas.

Nem sempre a pessoa está preparada para, digamos, “ser rica”. Com a ascensão social, o sujeito passa a freqüentar ambientes aos quais não está habituado. Ambientes de gente refinada (mas nem sempre educada), cheios de regras e convenções estranhas àquelas com as quais o cidadão foi criado. É como se um sujeito tivesse jogado damas a vida inteira e de repente se visse no meio de um jogo de xadrez; tudo parece estranho, e o medo de dar um passo em falso é constante.

Com tantos obstáculos ao seu redor, nasce dentro do sujeito um sentimento espontâneo, quase natural, de se “reafirmar” o tempo todo. Como se tivesse necessidade de dizer a si mesmo constantemente: “Eu sou rico. Eu posso freqüentar esse ambiente. Eu fiz por merecer estar aqui”. É dizer: externamente, o sujeito deixou de ser pobre. Mas, por dentro, o pobre não deixou o sujeito. Por isso, a necessidade permanente de ostentação.

Estabelece-se, então, uma esquizofrênica relação entre o que o sujeito aparenta ser por fora e o sujeito pobre não saiu de dentro. O primeiro tentando abafar o segundo; o segundo tentando chamar a atenção do primeiro.

Como todo sentimento natural, o pensamento interior reflete-se em ações exteriores. E aí surgem as grosserias e as atitudes típicas que caracterizam os nouveaux riches. É muito fácil identificá-los, principalmente em restaurantes chiques. Aqui vão só alguns exemplos:

1 – Em um restaurante, o nouveau riche escolhe o vinho não pelo prato, mas pelo preço. Quanto mais caro, melhor.

2 – Em um restaurante, o nouveau riche não escolhe o prato do cardápio. Não se digna sequer a chamar o mâitre para pedir ajudar a escolher. Manda chamar o chef, ignorando a regra de que só se chama o chef – se for o caso – ao final da refeição, para agradecê-la.

3 – Em um restaurante, o nouveau riche pede um champagne caro, um Dom Pérignon ou um Möet & Chandon da vida, e balança para estourar, deixando derramar um monte ao lado da mesa.

4 – Não importa se o sujeito mora numa cidade que faz 40 graus de dia. Ele compra um sobretudo (casaco, se for mulher) para usá-lo à noite, quando faz um frio de 32 graus.

5 – O nouveau riche se recusa a andar de transporte público (metrô ou ônibus). Para ele, isso é coisa de pobre. Por isso, só anda de táxi. Nos casos mais graves, nem de táxi; só de limousine alugada.

6 – Por falar em pobre, nouveau riche destesta pobre. Provavelmente porque faz lembrar que um dia ele também foi pobre. Por isso, todo nouveau riche que se preza é rude: não dá bom dia a porteiro nem agradece a alguém que lhe presta um favor.

7 – O nouveau riche adora carrão importado, só para andar nas ruas cantando pneu e tirando fina dos pedestres, enquanto ouve no sistema de 7.1 canais Hi-fi do carro um funk qualquer ou um Michel Teló da vida. A velocidade é toda, mesmo que só haja buracos e lombadas na cidade.

8 – O nouveau riche não é um mesquinho por natureza. Ao contrário. Adora pagar contas até para quem não conhece. É como se a consciência do pobre dentro dele buzinasse em sua orelha que seria um sinal de pirangagem negar-se a pagar a noitada de um estranho.

9 – Em viagens, o nouveau riche privilegia a ostentação à cultura. É capaz de ir a Paris e jantar no Tour D’Argent, mas negar-se a ir ao Louvre “porque é muito grande e só tem a Mona Lisa”.

10 – E, claro, nouveau riche que é nouveau riche não pode deixar de ir à Ópera. Pode não entender patavinas do que se passa e dormir durante a apresentação. O que importa pra ele é comprar um camarote de frente para o palco (o mais caro, é óbvio), só para poder dizer depois que assistiu às Bodas de Fígaro no front stage.

Bom, esses são apenas alguns exemplos. Há muitos mais, é claro. Mas, nesse tipo de questão, o importante é lembrar de um ensinamento secular: “Brega é perguntar o que é chique. Chique é não responder”.

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