Um romântico coveiro

Diz o ditado que, de onde menos se espera, daí é que não vem mesmo. Na maior parte dos casos, o realismo não admite alternativas. Afinal, a improbabilidade da situação e do ambiente acaba determinando o ceticismo quanto a algum resultado esperado.

Mas, como tudo na vida, essa regra comporta exceção. Ou alguém imaginaria que um sujeito pobre, esquálido, cuja voz rouca deveria dar uma aparência fantasmagórica a quem desenvolvia o ofício de coveiro, poderia tornar-se um dos maiores astros pop do circuito mundial?

Pois bem. Nesse caso, a exceção tem nome: Roderick David Stewart, ou, como ficaria mundialmente conhecido, Rod Stewart.

Caçula de cinco filhos, Rod Stewart era um inglês deslocado vivendo na Escócia. Sem grandes alternativas, tentou de tudo na vida: foi pintar silk screen, ser jogador de futebol e, é claro, até exerceu o soturno ofício de coveiro.

Mas sua grande paixão era a guitarra. Aprendeu a tocar cedo, aos onze anos. Depois, numa fase meio hippie, viajou a Europa como um daqueles caras que tocam nas estações de metrô pedindo dinheiro. Nessa condição, foi deportado da Espanha por vadiagem.

De volta ao Reino Unido, Rod Stewart pulou de banda em banda em busca de um lugar ao sol. Nessas idas e vindas, chegou até a formar grupo com Ronnie Wood, que posteriormente viria a fazer parte dos Rolling Stones. No entanto, seria sozinho que Rod Stewart despontaria para o estrelato.

Em 1971, Rod lançou Maggie May, uma canção com ar até certo ponto pop, mas que já denunciava sua verve romântica inata. A música foi um sucesso estrondoso, e o outrora coveiro atingiria o primeiro lugar das paradas pela primeira vez na carreira.

Depois do sucesso de Maggie May, Rod decidiu mudar de ares. Foi para os Estados Unidos, onde morava sua então namorada, Britt Ekland.

E a mudança parece que fez bem ao coveiro. Já ao chegar, lançou o álbum Atlantic Crossing, com duas de suas mais belas e conhecidas canções: Sailing e I don’t wanna talk about it. A primeira conta a história de um marinheiro, que navega através de tempestades para chegar de volta à sua amada, to be free.

A segunda é um verdadeiro clássico da dor-de-cotovelo; a história de um homem traído having second thougthts. Ele nem quer falar do modo com a mulher partiu seu coração, mas ainda assim fica a se perguntar: se ele ficar, será que ela ouvirá o seu coração? (Qualquer semelhança com Robert Pattinson e Kristen Stewart é mera coincidência).

No ano seguinte, Rod Stewart continuaria no primeiro lugar das paradas, dessa vez com Tonight’s the night, composição obrigatória de qualquer programa de revival de rádio que se preze. E também de qualquer primeiro encontro, digamos, a sós.

Em 1978, Rod Stewart mancharia seu currículo com D’Ya think I’m sexy? Não por causa da música, entenda-se, que é um pop rock bem interessante até. O problema era que a música trazia no refrão um plágio descarado de Taj Mahal, do grande Mestre Jorge Ben Jor. O tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá indefectível de Ben Jor soou imediatamente o alerta nos ouvidos de qualquer brasileiro que já tivesse escutado a história de amor entre o Xá Jahan e Muntaz Mahal tocada na guitarra invertida de Jorge Ben.

Pra quem quiser tirar a dúvida, abaixo vão as duas:

Curiosamente, depois disso a carreira de Rod Stewart experimentou uma certa decadência criativa. Nenhuma música posterior alcançou a mesma qualidade e, conseqüentemente, o mesmo sucesso das anteriores.

Não importa. Rod Stewart já tinha inscrito seu nome na história. No conjunto, sua obra romântica não encontra paralelo na originalidade.

Quem diria que um coveiro chegaria tão longe?

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