Nesse final de semana, assisti de camarote no Twitter @marianamarques trocando uma idéia com o Inacreditável Fábio Campos. O tema de fundo era o início das obras de mais um shopping em Fortaleza.
Para quem não é da cidade, convém informar que ultimamente uns 7 novos projetos de shopping encontram-se em desenvolvimento. Isso para não falar nas ampliações dos já existentes. Em um prazo de cinco anos, é possível que Fortaleza conte com uns 25 shoppings, entre os de grande e médio porte. Para uma cidade de aproximadamente 2,5 milhões de habitantes, trata-se de um despautério: 1 shopping para cada 100 mil habitantes.
No caso da obra em discussão, trata-se de um shopping gigantesco, a ser construído em uma área onde outrora funcionava uma fábrica da Brahma. Próximo à Lagoa do Papicu, o shopping ocupará uns 20 a 25 hectares de espaço onde há mais verde do que concreto. Fora a perda de mais uma área que poderia ser desapropriada e transformada em espaço de uso público, o shopping fatalmente transformará em caos o seu entorno, que claramente não foi projetado para receber a imensa quantidade de carros que para lá se deslocarão.
De seu twitter, o Inacreditável Fábio Campos celebrava a chegada dos novos shoppings. Para ele, “Shoppings fazem bem à cidade. Requalificam seu entorno, não precisam de incentivos fiscais e geram muitos empregos”. Da sua tela, @marianamarques replicava que “o que faz bem à cidade é verde, parque revitalizado, praça, lazer e transporte público de qualidade”.
Sempre aproveitando o mote para elogiar sua amiga prefeita, o Inacreditável Fábio Campos defendeu que, em Fortaleza, os shoppings “estão obrigados a bancar mudanças no trânsito”, além de, no caso específico do shopping em discussão, estar prevista como contrapartida a “manutenção da lagoa” do Papicu. Sem se fazer de rogada, @marianamarques foi direto ao ponto: “o ideal pra cidade era não precisar construir um shopping pra melhorar o entorno”.
Xeque.
Nessa discussão amigável (este que vos escreve dificilmente seria tão cortês quanto o foi @marianamarques) e aparentemente despretensiosa, está, na minha opinião, o Brasil profundo em debate. O que esteve em jogo não foi a construção de mais um shopping em uma capital. O que esteve em jogo foi a visão do que se espera de uma cidade e, no limite, do tipo que sociedade que se pretende construir no país.
É fato: um shopping traz empregos, movimenta a economia e, em certos casos, ajuda a valorizar o seu entorno. Mas a questão não é essa. A questão é: havendo uma imensa área verde na cidade, é preferível destiná-la a um espaço público (parque, praça) ou a um espaço privado?
Nesse ponto, aparece o que, na minha opinião, é uma das maiores macaquices do imaginário nacional. Encontram-se às pencas gente disposta a criticar os americanos por isso e por aquilo. Mas pouca gente se dá conta de que o hábito de “privatizar” os espaços da cidade, transformando-os em mecas de consumo fútil e desenfreado, é um hábito tipicamente americano. Trata-se da visão distorcida segundo a qual “o consumo é uma atividade de lazer” (Fábio Campos). O cidadão, pois, não passa de um consumidor em potencial. O que o Estado deve fazer é estimular a proliferação de centros de consumo como coelhos, para atender à “demanda” desse “cidadão”.
Cidadão não quer – ou não quer somente – comprar para se divertir. Quer correr, quer brincar com seus filhos, quer andar de bicicleta. De preferência, em um lugar onde não precise pagar pra isso e onde possa fazê-lo com o mínimo de segurança. Com os shoppings, o administrador lava as mãos. Transfere-se ao setor privado a manutenção do espaço e a segurança do local. Livra-se do problema e ainda se capitaliza o “investimento” na cidade. Para o administrador, portanto, cevar a criação de shoppings é uma mão na roda. Gasta-se nada de dinheiro, ganha-se muito em propaganda e, quando há contrapartidas, pode-se ainda trombetear a imagem de “jogar duro” com os setores privados.
Embromação reles. Um governo realmente disposto a jogar duro com o setor privado faria valer a Lei de Uso e Ocupação do Solo, impedindo a construção em áreas de proteção ambiental, em áreas públicas (praças) e em locais onde o trânsito já está saturado. Privilégio restrito, até onde sei, a Curitiba e a Brasília, quando o assunto é capitais.
Sem querer – ou sem nos darmos conta -, estamos construindo uma geração para a qual a única atividade de lazer será ir ao shopping. Correr? Só se for na academia. Ficar de papo pro ar? Só se for no sofá. Brincar? Só se for em casa.
Reféns de nossos próprios hábitos, caberá a nós somente nos resignar. Ou mudar pra Europa. O retrato da criançada jogando bola na rua será somente uma foto envelhecida na estante.
A chorar… A chorar…
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