Vez por outra, cansado desse sobe e desce praticamente diário do mercado financeiro, e também das crises constantes no capitalismo global, aparece algum desses analistas de mercado sugerindo a realização de “um novo Bretton Woods”.
O que raios o sujeito quer dizer com isso?
Bretton Woods é uma cidadezinha miúda e desimportante do também irrelevante estado de New Hampshire, nos Estados Unidos. No entanto, uma conferência realizada no Mount Washington Hotel em julho de 1944 catapultaria esse pequeno vilarejo ao estrelato econômico mundial.
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O momento era emblemático. A despeito de a guerra na Europa só ter terminado em maio do ano seguinte, em julho daquele ano o fim da Alemanha hitlerista já surgia no horizonte. Os russos haviam expulsado os nazistas de Stalingrado e os aliados haviam desembarcado na Normandia. A derrota do Fürher era só uma questão de tempo.
Diante disso, os Aliados – principalmente Estados Unidos e Inglaterra – começaram a planejar o mundo pós-guerra. Houve várias conferências destinadas a reordenar o globo na era pós-Hitler, como Potsdam e Yalta. Mas, em termos de reestruturação econômica, nenhuma se equipara a Bretton Woods.
Com as costas marcadas pela Grande Depressão, americanos e o resto do mundo ocidental queriam estabelecer um conjunto de regras e mecanismos apto a responder às disfunções do sistema financeiro mundial. Estava viva na memória a lembrança das guerras de desvalorização de moedas e o caos de medidas protecionistas que transformaram o que deveria ser apenas uma crise na bolsa de valores (o Crash de 1929) na pior crise econômica até então conhecida.
Embora divergissem quanto a alguns aspectos formais, todos os participantes compartilhavam de uma idéia comum: era necessário mais intervenção do governo na economia. Deixados livres e desregulados, os mercados conduziriam inevitavelmente a crises mais freqüentes e mais graves no futuro. Para evitar isso, era necessário criar um sistema de regras que se aplicasse indistintamente a todos os países e – mais importante – instituições responsáveis por fiscalizar e implementar esse conjunto de regras. Nasciam, assim, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (Bird).
Do ponto de vista teórico, a grande figura por trás de Bretton Woods era um inglês elegante, cuja imponência do porte (1,98m) só perdia em capacidade de causar admiração para sua imponência intelectual: John Maynard Keynes.
Keynes estudou a fundo os ciclos econômicos. Estava convencido que as disfunções do sistema capitalista só poderiam ser mitigadas caso o Estado interviesse de forma decisiva tentando amainar tanto os período de grande euforia como os períodos de depressão econômica. Uma das formas de se fazer isso era criar uma rede de proteção social que minorasse os problemas causados pelos períodos de diminuição da atividade econômica. De certo modo, pode-se dizer que John Maynard Keynes é o pai do welfare state, sendo Bretton Woods a sala de parto desse novo modelo estatal.
O ponto principal de Bretton Woods era a definição de taxas de câmbio fixas. Essa regra impediria as guerras de desvalorização cambial. Além disso, o sistema de taxas fixas pretendia favorecer as trocas internacionais (exportação e importação), a partir da facilitação da conversibilidade das moedas de um país na moeda de um outro país.
O “padrão mundial monetário” – ou, em outras palavras, o equivalente ao “quilo” ou ao “metro” – seria uma moeda virtual chamada Bankor. Fruto da cabeça de Keynes, o Bankor faria com que todas as demais moedas variassem no máximo 1% em relação a ela, de modo a que as taxas de câmbio se mantivessem relativamente estáveis.
Obviamente, os americanos detonaram a idéia. Quer dizer, plagiaram-na. Haveria uma moeda de reserva mundial. Mas essa moeda não seria o Bankor, nem seria comandada pelo FMI. Seria o dólar, controlado pelo FED (Banco Central americano).
Ao contrário do que diz por aí, isso não implicou o fim do padrão-ouro. Na verdade, ele ganhou um “intermediário”. Todas as moedas seriam conversíveis em dólar, e o dólar seria conversível em ouro, à taxa de US$ 35 por onça troy (aproximadamente 31,1 g).
A adoção do “padrão dólar-ouro” acabou por detonar a idéia inicial de Bretton Woods. Pelo sistema arquitetado por Keynes e outros economistas, o FMI funcionaria como uma espécie de “Banco Central mundial”, emprestando dinheiro aos países em caso de crise balanço de pagamentos (para manter o regime de paridade cambial). Por outro lado, o Banco Mundial ficaria responsável por emprestar dinheiro aos países subdesenvolvidos, de modo a minorar as disparidades econômicas mundiais e, obviamente, aumentar o tamanho dos mercados consumidores aos quais os países desenvolvidos poderiam exportar seus produtos.
Anos depois, o sistema de Bretton Woods seria definitivamente enterrado quando Richard Nixon abandonou a conversibilidade do dólar em ouro e adotou exclusivamente o “padrão-dólar” (uma história contada em outro post).
Quem sugere “um novo Bretton Woods” na verdade deveria propor “um velho Bretton Woods”. Se tivessem ouvido o gigante – literalmente – gênio de Keynes, é provável que muitas das crises pelas quais passamos não tivesse existido. Mal da arrogância, os Estados Unidos, responsáveis diretos pela detonação do plano de Keynes, agora são uma das maiores vítimas desse sistema.
As ironias do destino…