Por um novo modelo de greve no serviço público

Todo mundo que acompanha o noticiário sabe que quase todo mundo no serviço público federal está em greve. Receita Federal, Justiça Federal, Aneel, Anvisa, PF, PRF e por aí vai. De um lado, o Governo estica a corda, dizendo que não tem como dar aumentos. Do outro, os grevistas respondem ao seu jeito: atormentando a vida do cidadão comum.

Fazer greve é um direito fundamental do trabalhador, seja público ou privado. E – reconheça-se – em mais de 90% dos casos, os grevistas têm razão. Fora isso, no contexto político nacional, as greves sempre desempenharam um papel relevante. Se não fossem elas, Lula seria apenas um torneiro bissílado em São Bernardo. Depois de ter o dedo decepeado por uma prensa, jamais poderia pensar em se tornar Presidente da República. Foi o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC que deu a esse líder nato um palco que o projetou para o cenário nacional.

Mas, passados mais de 30 anos da redemocratização, já passou o tempo de pensar-se em novas formas de expressão da greve.

Quem assistiu ao noticiário viu, por exemplo, turistas e cidadãos comuns submetidos a filas quilométricas nos postos de fronteira por conta de uma “operação-padrão” da Polícia Federal. Em outros lugares, policiais rodoviários inspecionavam todo automóvel que passava pelas rodovias federais, gerando congestionamentos intermináveis. É impossível assistir a cenas de crianças sofrendo com o sol forte, dentro de carros fechados, e não achar que há algo de desumano em quem pratica semelhante ato.

Os grevistas costumam argumentar que esse é o único modo de “fazer-se ouvir” pelo governo. Do ponto de vista da opinião pública, no entanto, a estratégia é desastrosa. Se ordinariamente a população tende a encampar a briga do “mais fraco” contra o “mais forte” ficando ao lado do primeiro, a greve perturbadora do dia-a-dia automaticamente inverte os papéis nessa história. De mocinhos, os grevistas passam a bandidos. E o governo (qualquer governo), de vilão, passa a herói.

Falta, a meu ver, um pouco de criatividade e sabedoria para que os grevistas consigam ver suas reivindicações atendidas sem ter de atazanar a vida do cidadão comum.

Certa vez, não me recordo em que ano, motoristas e trocadores de ônibus estavam em campanha salarial em uma determinada capital nordestina. Prenunciava-se a reprise de um roteiro conhecido: corda esticada, greve deflagrada e gente humilde que precisa do ônibus para se deslocar tendo de fazer das tripas coração para poder chegar ao trabalho. Tudo isso e mais o caos completo no trânsito da cidade.

Eis que algum gênio desconhecido surge com uma idéia brilhante: por que em vez de pararmos a circulação dos ônibus, não continuamos circulando sem cobrar pela passagem?

Decretada a greve, os motoristas e trocadores deram início à ação benevolente. A cidade continuou a mesma, mas a população viu naqueles pobres trabalhadores o vulto perdido de Robin Hood. O apoio popular ao movimento explodiu, fazendo com que o número de viagens dobrasse em apenas um dia.

Dois dias depois, a greve se encerrava. Nunca antes, e nunca depois, um movimento grevista conseguiu tanto sem causar transtorno algum à população.

Eu sei, eu sei, isso não se aplica a toda e qualquer categoria. Mas os sindicalistas têm de começar a deixar de ter preguiça mental. Ao invés de paralisar totalmente as atividades, por que não mobilizar toda a classe para, em um dia específico, avisando à população com antecedência, ir doar sangue (e ter o ponto abonado por isso)?

Um dia a menos não faria, assim, tanta diferença. Mas o ato de doação de dezenas de servidores ajudaria muitas pessoas, além de trazer uma propaganda positiva para o movimento.

O que as lideranças sindicais devem compreender é que o mundo mudou, e as soluções de antes não valem mais para os dias de hoje. Falta-lhes a sábia simplicidade de Lord Keynes: “Quando as circunstâncias mudam, minhas convicções mudam também”.

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