O maior romance da literatura nacional

Essa é das mais polêmicas.

Vira e mexe, resolvem juntar alguns escritores para estipular um cânone da literatura nacional, real ou ficcional. Os Sertões, Vidas Secas, Grande Sertão: Veredas… as figurinhas carimbadas estão sempre lá, seja qual for a ordem adotada. Mas, dentre todos estes, na modesta opinião deste que vos escreve, nenhum é maior do que Dom Casmurro.

Certa vez escrevi aqui que, se pudesse escolher um livro para chamar de meu – isto é, qual livro eu gostaria de ter escrito – escolheria Hamlet. Mas, na língua portuguesa, a mesma escolha recairia sobre Dom Casmurro.

Dom Casmurro é a obra definitiva de Machado de Assis. Depois de uma fase de, digamos, “conservadorismo” literário de romances como Helena e Iaiá Garcia, na qual Machado já se destacava, mas não operou grandes mudanças de paradigmas literários, o Bruxo do Cosme Velho resolveu mudar para sempre a literatura brasileira com Memórias Póstumas de Brás Cubas. A escrita ácida, a sinceridade assustadoramente cáustica de Brás Cubas fizeram com que até mesmo seu autor indagasse-se se aquilo poderia ser chamado de “romance”. A biografia do defunto-autor inaugura um novo estilo de escrita que atinge seu ápice em Dom Casmurro.

A história todo mundo conhece, pelo menos de ouvir falar.

Bentinho é uma criança nascida em berço de ouro (tal qual Brás Cubas), superprotegido pela mãe. De certo modo, ela dirige toda a cena em sua casa. Há até um agregado (José Dias) – que, na linguagem atual, poderia ser chamado de “escalado” – que ali vive a puxar o saco alheio para ter um lugar onde dormir e comer.

Como todo garoto imberbe, Bentinho é um idiota. Quer dizer, são brinquedos facilmente manipuláveis nas mãos de meninas da mesma idade, que fazem dos tolos projetos de homem o que bem querem. Natural, dado que a mulher desenvolve a perspicácia e a malícia antes do homem. Na maior parte dos casos, o adolescente só vai conseguir tornar o jogo mais parelho depois dos 20 anos, e verdadeiramente não o conseguirá igualar nunca.

Em Dom Casmurro, a puppeteer de Bentinho é Capitu. Filha do vizinho falido, Capitu é uma jovem bela e faceira. Talvez por isso mesmo, a mãe de Bentinho enxerga nela uma espécie de alpinista social, o que leva José Dias a fazer-lhe a “denúncia”: “Se eles pegam em namoro…

A trama, então se desenvolve em torno do relacionamento de Bentinho e Capitu. O que muita gente talvez não consiga captar é que Dom Casmurro não é um romance sobre o adultério, mas um romance sobre o ciúme. “Escrito” por um Bentinho velho, sozinho e amargurado, toda a narrativa encontra-se impregnada do ciúme doentio que Bentinho sentia de Capitu, principalmente como seu velho amigo de fé, irmão camarada, Escobar.

Afastando-se um pouco do narrador, é possível perceber que o livro segue um estilo forense. Trata-se de uma peça de acusação, com Bentinho na condição de promotor, Capitu na condição de ré e você, “caro leitor”, na condição de julgador.

Bentinho apresenta sua tese de acusação: foi traído por Capitu com Escobar e seu filho, Emanuel, é fruto dessa relação. Para “prová-la”, rememora as partes de sua vida, dando especial relevo à dissimulação e à sagacidade de Capitu. Entre um fato e outro, Bentinho produz algumas digressões – como o caso da mulher do baerbeiro – destinadas a atriar a simpatia do “amigo leitor” à sua tese.

Sem defesa, Capitu fica à mercê da narrativa enviesada de seu marido. Como não há “nos autos” outras “provas” senão aquelas apresentadas por Bentinho, toda a acusação torna-se verossimilhante, dada a inexistência de contraditório. Por ela, pode-se até mesmo acreditar que Emanuel era a cara cuspida e escarrada de Escobar. Até mesmo seus trejeitos imitava, como se os tiques nervosos passassem com a herança genética.

No fundo, no fundo, não há como saber se isso é verdadeiro. Pode ser uma deformação da mente doentia de um velho amargurado. Pode ser também uma forçação de barra de um promotor ambicioso. O fato, meu caro leitor, é que você é apresentado a um “processo” kafkaniano: há acusação, não há defesa, e a pobre da ré não tem sequer o direito de fazer seu contraponto.

No final, Bentinho ainda produz uma trapaça. Toma do leitor até mesmo o papel de julgador. “O resto”, diz Bentinho, “é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente”, para, afinal, concluir que “uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca”.

Sem dúvidas acerca da culpa de ambos, proclama o veredito: …”a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos, e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me”.

E, ao final, expede a sentença:

“A terra lhes seja leve!”

O que faz de Dom Casmurro um romance único é justamente isso: ludibriar o leitor de modo que ele não perceba que foi enganado.

E, como uma certa síndrome de Estocolmo, é impossível não estabelecer uma relação de empatia com esse velho transtornado e trapaceiro.

Ah, como eu queria ter escrito Dom Casmurro

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6 respostas para O maior romance da literatura nacional

  1. Mourão disse:

    Meu caro Senador, o seu texto merece o romance em inspiração e perspicácia.
    Gostei muito.

  2. Kellyne disse:

    Também gosto muito de Dom Casmurro e essa sinopse tão bem elaborada faz até nascer a vontade de lê-lo mais uma vez…Junto-me ao coro, excelente texto! Bjos

  3. Que sinopse maravilhosa e bem elaborada. Sem dúvidas a vontade de ler o livro novamente me surgiu. Espero que faça mais sinopses como essa, meu caro!

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