Faz tempo que eu tô devendo um post sobre a guerra civil na Síria. Esse aparente desleixo, provavelmente, foi causado por uma sensação íntima – e talvez real – de que o que se passa por lá, no fundo, não passa de mais do mesmo desde que começaram a pipocar as revoluções no mundo árabe. E, de certo modo, a atual situação na Síria deriva um pouco dos acontecimentos que se desenrolaram antes do fogo começar a arder sob os pés de Bashar Al-Assad.
Primeira questão: por que a ONU não intervém diretamente na Síria, como aconteceu, por exemplo, na Líbia?
Por várias razões.
A primeira delas é que, quando o Conselho de Segurança decretou a zona de exclusão aérea no céu a pairar sobre Khaddafi, americanos e franceses foram além do autorizado na resolução e começaram a bombardear as forças armadas líbias. Sob esse aspecto, China e Rússia têm razão em hesitar e negar seu apoio algo que venha a lembrar, ainda que remotamente, uma intervenção molitar. Quem lhes garante que o que se passou na Líbia não vai se repetir na Síria?
Fora isso, há uma questão econômica por trás da aparente proteção dada pelos russos a Bashar Al-Assad. Isso porque a Síria é uma das maiores compradoras de armamentos militares no mundo, sendo a Rússia o seu principal fornecedor. O vil metal – sempre ele – dita as razões da diplomacia.
Segunda questão: por que os rebeldes sírios estão “sozinhos”, ou seja, não contam com apoio internacional, seja por contrabando de armas, seja por sabotagem das instalações do governo?
Bom, isso também decorre do receio – nesse caso, geral – do que se passou nos outros países da região. Em nenhum caso, sobreveio um governo inclinado a se alinhar aos intereses ocidentais. No caso da Líbia, por exemplo, a intervenção francesa liderada por Sarkozy foi decisiva para prover aos insurgentes armas e informações de inteligência para derrubar Khaddafi. Sem isso, provavelmente ele ainda continuaria dando as cartas por lá. Apenas no Egito a situação do establishment político pode ser considerada pró-ocidente. Mesmo assim, mesmo esse tênue apoio é frágil, porque se sustenta apenas nas baionetas patrocinadas pela verba americana. Sem os gorilas comprados, e talvez mesmo com eles, o Egito certamente se inclinaria na direção do radicalismo islâmico.
Terceira questão: Assad vai cair por gravidade, isto é, a força dos rebeldes será suficiente para derrubá-lo?
É difícil dizer. A Síria é um país mais desenvolvido do que era a Líbia de Khaddafi. Para além disso, Assad compartilha do falecido coronel líbio a mesma falta de escrúpulos de exterminar a própria população, se necessário for, para manter-se no cargo. Esses dois fatores têm enorme peso, o que me leva a apostar que a revolução não deve levar à queda de Assad tão cedo. Muito provavelmente, Assad deve se segurar no cargo até pelo menos o final do ano.
Mesmo assim, como as outras revoluções demonstraram, a queda de Assad é uma certeza matemática. Com um país em frangalhos, encarando uma guerra civil se valendo dos piores métodos possíveis, é razoável supor que, mais hora, menos hora, o apoio militar que lhe sustenta no cargo vai se esvair lentamente, seja pelas baixas impostas pelos rebeldes, seja pelo restinho de senso moral que deve haver entre os militares sírios. Quando isso acontecer, ou Assad se exiliará em algum país amigo (pagando, é claro), ou então será chacinado, como aconteceu com Khaddafi. Assim como o ditador sírio, Assad é um arquivo ambulante. A ninguém interessa que seja preso e eventualmente abra a boca. Muito menos aos russos.
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