O caso Carolina Dieckmann, ou A morbidez sórdida da turba

Esse faz parte do rol de posts que já nascem defasados, porque o momento já passou. Mas, como sou teimoso e metido a falar de tudo, vamos a ele.

Todo mundo viu ou dever ter ouvido falar do caso do vazamento das fotos da atriz Carolina Dieckmann. Um hacker qualquer invadiu seu computador pessoal, furtou os arquivos e depois começou a chantageá-la com a ameaça de divulgação. Inadvertidamente, as fotos vazaram antes do pagamento do “resgate” das fotos, momento no qual Dieckmann planejara, junto com a polícia, prender em flagrante os chantagistas.

Não bastasse a queda resultante de ter sua intimidade exposta a toda a humanidade sem o seu consentimento, logo depois veio o coice da recriminação social: “Como é que pode? Tirar umas fotos desse tipo? E ainda deixar no computador? É muito burra, mesmo”. No limite, houve muita gente que experimentou um certo gostinho de “vingança” contra Carolina, considerada anti-social por boa parte do mundo global e elevada à categoria de vilã desde quando se recusou a calçar as “Sandálias da Humildade” do Pânico. Tipo: “Bem feito! Quem mandou ser antipática?”

Ninguém contesta o fato de que a internet é uma ferramente formidável, mas casos como o de Carolina Dieckmann expõe de forma crua a sordidez presente na alma humana. Individualmente, é possível que muitos dos críticos de Carolina não se dispusessem a fazer críticas ao fato de ter tirado fotos como veio ao mundo para seu marido. Pode até mesmo haver, dentre estes, gente que se propusesse a fazer o mesmo. Mesmo assim, reunida a turba, a racionalidade vai para o espaço, e a ignomínia passa a ditar o rumo das ações.

Carolina Dieckmann não expôs as fotos ao público. Teve sua privacidade indevidamente violada por bandidos – repita-se: BANDIDOS – que, além de a expor, sujeitaram-na à extorsão para não relevar aquilo que só seu marido deveria ver. Por isso, quem “recrimina”  Carolina por “expor” sua intimidade em fotos digitais, de certo modo está a associar-se ao bandido que a extorquiu, ou, no mínimo, considera “natural” e “corriqueiro” ter seu computador devassado por criminosos em busca de detalhes constrangedores de sua vida íntima.

Curiosamente, nenhum dos “acusadores” de Dieckmann insurge-se contra mulheres que posam na Playboy. Quer dizer: tirar foto nua e expô-la ao público, pode. O que não pode é tirar foto na intimidade, não mostrar a ninguém e vê-la hackeada por algum delinqüente. Sobre essa contradição, ainda não ouvi palavra.

Dieckmann pode não ser lá a pessoa mais simpática do mundo (não a conheço, portanto, resguardo-me o direito de não opinar). Poderia até mesmo ser a Rainha Má. Mas isso não dá a ninguém o direito de invadir seu computador para furtar fotos pessoais. O que houve foi um crime e, como tal, deve ser condenado.

Ceder à mórbida sordidez da turba e recriminar vítimas de criminosos é o primeiro passo para abandonar a condição humana. Não nos esqueçamos disso.

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