A síndrome do auto-engano, ou Os limites da eficácia da interiorização da educação superior

Certa vez, desbravando a hinterlândia deste Brasil Varonil, Ana O. pôs-se a comentar sobre um problema bastante pertinente: a ilusão das faculdades e/ou universidades no interior do país.

Já há algum tempo, governos estaduais e o governo federal têm procurado descentralizar o ensino superior no país, isto é, ao invés de aumentar a quantidade de vagas nas universidades já instaladas na capital do país, é melhor abrir novos campi em cidades interioranas.

O benefício da medida é óbvio.

Em primeiro lugar, faz com que menos gente se desloque do interior em direção às capitais, contribuindo pra desafogar um pouco as nossas já congestionadas metrópoles. Não só no trânsito, diga-se, mas principalmente na infraestrutura necessária para receber essa gente toda: escolas, hospitais, moradia decente, emprego, etc.

Em segundo lugar, ao evitar a migração para as cidades, promove-se de igual o crescimento do interior. Mantém-se o sujeito na cidade onde nasceu, junto de sua família, perto de suas raízes, além de qualificar a mão-de-obra e permitir um desenvolvimento mais saudável das cidades do interior.

Até aí, tudo bem. O problema não está exatamente na política de interiorização, mas no tipo de faculdade que se instala no interior. Em quase todos os campi do interior, a preferência é por cursos como pedagogia, filosofia, sociologia e etc. Quando muito, há um curso de Direito, aqui ou acolá.

Longe de mim manifestar algum preconceito com esses cursos. Nada disso. A questão é mais funda.

Cada turma de formandos sai em média com 50 profissionais. Assim, em um ano, formam-se, por exemplo, 100 professores numa pequena cidade do interior do país.

“E daí?”

Daí que o que farão 100 professores nessa cidade se só há duas escolas, com vinte vagas? 80 pessoas serão formadas e não encontrarão emprego na área profissional em que se qualificaram.

A coisa fica mais grave ainda em cursos como sociologia e filosofia. Salvo o aparecimento de algum Weber ou um Wittengestein, que farão os sociológos e filosófos formados no interior do país.

Assim, mesmo formados, os estudantes do interior do país continuam sem emprego, e, por isso, têm de vir à capital para procurar um lugar ao sol. A intenção primeira de manter a população nativa no interior não se resolve; apenas se adia o problema.

Mas, se é assim, por que não colocar cursos técnicos em vez de cursos de humanas?

Simples: custo. Em quase todos os casos, não se precisa mais do que uma boa biblioteca e professores. Nos cursos técnicos, como engenharia, química, farmácia, medicina, etc., são necessários, além desses dois, laboratórios com equipamentos avançados, coisa que custa muito dinheiro pra comprar e mais ainda para manter.

Alguém consegue imaginar, por exemplo, como uma cidade agrícola do interior do país tenha um curso superior de humanas mas não tenha um de agronomia? Em tese, não haveria o que se discutir, mas aí entrão as opções políticas dos governos de plantão, e as boas intenções vão todas pelo ralo. Com isso, perde o interior e perdem as capitais.

Não se engane: enquanto no interior não houver os mesmos cursos disponibilizados nas capitais, continuaremos a assistir ao triste espetáculo do êxodo rural.

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