Reza a lenda que Napoleão disse certa vez: “Quando a China despertar, o mundo vai tremer”.
Tremer, não está tremendo. Ainda. Mas já dá pra sentir uns solavancos de vez em quando
De país mais populoso e miserável do mundo, a China transformou-se em potência econômica, um dínamo aparentemente “imparável” rumo a substituir os Estados Unidos como maior economia do mundo.
O que explica essa ascensão?
Bom, na verdade são muitos os fatores.
Primeiro, o abandono da ideologia maoísta, quando Deng Xiaoping o substituiu como líder maior do país. Deng sabia que a imensa massa populacional poderia mui bem ser direcionada para receber fábricas de outros países e, pagando menos, rivalizar com as próprias indústrias que vinham investir na China.
É o que vem acontecendo há 30 anos. Com um mercado interno possivelmente menor do que o brasileiro, o crescimento chinês assenta-se basicamente no investimento externo e nas exportações. Recebem fábricas de empresas sediadas no mundo todo e vendem, a preços de banana, aos países que sediam essas mesmas empresas.
Além da mão-de-obra extremamente barata, a China manipula sua taxa de câmbio. Mantém o Yuan artificialmente desvalorizado, contribuindo para aumentar ainda mais a competitividade dos seus produtos. Pra piorar, o câmbio desvalorizado torna proibitivo o consumo de produtos externos, o que contribui para menor gasto com importações.
Com vendas crescentes e compras menores, o resultado é um saldo comercial boçal. Algo como uns US$ 300 bilhões por ano.
E o que faz a China com esses dólares excedentes?
Investe tudo em títulos americanos. Como os americanos não poupam nada, apenas emitem moeda, é necessário que alguém financie a farra financeira de sua população gastadora. Esse alguém é o resto do mundo – Brasil incluído – mas a China é disparado o maior credor da dívida americana. Até outro dia, mas de US$ 2 trilhões em reservas cambiais investidos em títulos do governo americano.
Mas por que a China continua a financiar o seu rival direto, militar e economicamente?
Simples. Além de maiores rivais, os americanos são os maiores compradores de produtos chineses. Se os chineses pararem de investir em títulos americanos, em algum momento isso resultará em recessão nos Estados Unidos, porque eles serão obrigados viver com o que têm – ou, em economês, “conter gastos” e “impor rigor fiscal”. Com menos crescimento, menos compras de produtos estrangeiros – China inclusive. E se a China vender menos produtos, produzirá menos e crescerá menos.
Imagine a seguinte situação: de um lado, há um sujeito rico, mas perdulário. Por conta da fama de rico que goza e por seu passado honesto, conta com muito crédito na praça. Seus cheques podem são mundialmente aceitos e podem ser trocados por dinheiro em qualquer lugar. Do outro lado, um grande vendedor, que produz tudo que você possa imaginar. O sujeito perdulário emite um monte de cheques para poder consumir o que o grande vendedor produz. O grande vendedor os recebe, pois confia que, na hora do aperreio, poderá trocar os cheques por dinheiro.
No exemplo, o sujeito perdulário são os Estados Unidos. O grande vendedor é a China. E os cheques são os títulos do governo americano.
Com isso, estabeleceu-se uma relação simbiótica: a China produz para os Estados Unidos comprarem. Como eles não têm dinheiro, emitem títulos, e a China os compra, permitindo que os Estados Unidos continuem comprando.
O problema é que a emissão de títulos (ou cheques) aumenta a dívida dos Estados Unidos. Hoje, ela já beira 80% do PIB. Só pra se ter uma idéia, quando o Brasil quebrou em 1999, ela estava em menos de 60% do PIB.
Até quando essa relação simbiótica vai funcionar?
Não sei. Mas garanto que, no dia em que ela se romper, o barulho vai ser grande.