O reconhecimento da Palestina

Hoje foi hasteada no pavilhão da Unesco em Paris a bandeira da Palestina. Pela primeira vez na história de um organismo internacional, a Palestina será tratada como um Estado. Os israelenses chiaram e, sem o aval dos Estados Unidos, a Palestina jamais será um membro permanente das Nações Unidas. Mas isso não faz com que este deixe de ser ser um dia histórico.

Quem acompanha o blog deve ter visto a série sobre os conflitos entre árabes e israelenses. Em mais de 60 anos de guerras, sempre havia no meio, espremida, uma massa disforme de gente que acabaou desalojada de sua pátria e de sua terra depois da independência de Israel. São eles a formar a Palestina de hoje em dia.

Pelo plano arquitetado pela ONU, o atual estado de Israel ocupa boa parte do território destinado aos palestinos. Fora isso, ocupa ainda a Cisjordânia e, até outro dia, ocupava também a Faixa de Gaza, todas áreas habitadas majoritariamente por palestinos. Na maior parte dessas áreas, já foram construídos assentamentos judeus, algo já denunciado e condenado por vários países e pela própria ONU.

Israel não quer um estado palestino. Não quer, primeiro, porque teria que remover suas ocupações ilegais, algo politicamente inviável e injustificável perante sua população. Não quer, segundo, porque teme a estruturação de (mais) um estado inimigo como seu vizinho, algo cada dia menos justificável perante a comunidade internacional. Não quer, por último, porque teriam de abrir mão de Jerusalém Oriental, quebrando o dogma de Jerusalém, una e santa, como capital eterna do estado judeu.

Israel, portanto, fica se equilibrando entre ovos. Não quer reconhecer o estado palestino e, simultaneamente, não quer reconhecer aos palestinos o direito de serem cidadãos israelenses. Sim, meus caros, nem aos palestinos nem a qualquer árabe é reconhecido o direito de ser cidadão de Israel. O motivo disso é puramente prático: no dia em que forem reconhecidos, os árabes terão direito a voto. Com direito a voto, elegerão facilmente um governo para representá-los, já que, no geral, seu montante populacional supera o contingente judeu na proporção de 3 pra 1.

Curiosamente, os Estados Unidos, sempre pregando a “difusão” da democracia no Oriente Médio, apoiam um estado que não reconhece à maior parte de seus habitantes o direito de serem cidadãos e de votar.

Quanto mais o tempo passa, mais isolados ficam EUA e Israel. Com o tempo, a pressão pelo reconhecimento da Palestina se tornará insuportável. E não será para sempre que os americanos mandarão no mundo como ainda mandam hoje. Quando esse momento chegar, ambos terão de decidir o que fazer. Tornaram-se párias num mundo em que todos os outros estados reconhecerão a Palestina, ou estabelecer uma política de conviência amigável com o estado palestino.

A questão, a meu ver, é que ambos se encerram num casulo. Em vez de elaborar uma estratégia de saíde, preferem fechar os olhos, como se o problema não existisse.

Quando a hora chegar, essa postura tornará ainda mais traumático o parto do estado palestino. A conferir.

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