Como todo mundo já deve saber, domingo morreu Sócrates, um dos maiores craques que já passou pelos estádios do Brasil varonil. Muito já se escreveu sobre a magia dele jogando, dos toques de calcanhar, da categoria do passe e da precisão do arremate daquele que entrou para a história como “Doutor”.
Mas não é sobre Sócrates jogador que eu quero falar. Quero falar do Sócrates cidadão, o primeiro – quiçá o único – futebolista brasileiro a fazer com as palavras coisas tão geniais como as fazia com a bola.
Sócrates era um sujeito clarividente. Só um cara assim seguiria com seu curso superior de medicina ao mesmo tempo em que entrava no fantasioso mundo do futebol, com o dinheiro e todos os prazeres que ele pode comprar ao alcance de um simples pedido. Ele sabia que, terminada a carreira como jogador, teria que seguir com a vida longe da bola. Mesmo que ganhasse muito dinheiro, o vazio deixado pela ausência dos gramados e o cruel esquecimento daqueles que se aposentam do esporte acabariam por destruir-lhe o prazer de viver. Ser médico, portanto, seria resposta para dois problemas: evitaria a bancarrota financeira e serviria como terapia ocupacional.
Sócrates não era só clarividente. Era também contestador. Nunca se conformara com a forma como estava estruturado o futebol no país. Achava que as coisas deveriam mudar.
E assim fez. Junto com Casagrande, Wladimir e Zenon, Sócrates ao recém-eleito presidente do Corinthians Waldemar Pires, que substituíra o lendário Vicente Matheus, um sistema de autogestão. Tudo – mas tudo mesmo – era decidido no voto pelos jogadores, técnico e diretoria. Desde contratações até a escalação do time. Com isso, foi pro espaço a inútil idéia de “concentração” antes do jogo, uma excentricidade que, até hoje, resiste nos campos de futebol.
Pouca gente entende a real dimensão da democracia corintiana. Fazer isso em tempos, digamos, “normais”, já seria por si só um feito. Mas quando se lembra que a democracia corintiana foi forjada em plena ditadura militar (1982) é que se vê o quanto de contestação havia naquele movimento pretensamente restrito aos gramados. Os jogadores do Corinthians decidiam no voto os rumos do seu time, num país no qual a população era privada de eleger seu presidente.
Pra deixar a coisa ainda mais contestadora, Washington Olivetto, corintiano fanático, durante a campanha das Diretas, mandara escrever nas camisas do time: “Diretas já – Eu quero votar pra presidente”. Se isso não bastasse, o próprio Doutor participou de vários comícios das Diretas.
Mesmo depois de aposentado, Sócrates continuou abalando as estruturas. Denunciou por mais de uma vez os desmandos dos clubes e da CBF. Tentava, como articulista da Carta Capital, lançar um outro olhar sobre o pano verde dos gramados. É como se não se conformasse com o fato de todo mundo aceitar passivamente o atual estado de coisas sem fazer nada para mudar.
Era isso que tornava Sócrates especial. Era um sujeito diferente. Depois da midiatização do futebol, da pasteurização das entrevistas e dos comportamentos, inspirada pela praga do politicamente correto, imaginar um jogador participando de forma tão ativa da política nacional tornou-se, infelizmente, algo impossível. Salvo Romário – já aposentado – olhar para o cenário atual de jogadores é contemplar a pasmaceira, o vazio, a idiotização do discurso.
Que país melhor teríamos se houvesse mais Sócrates a deitar sua elegância dos gramados e sua língua afiada fora deles.
Abaixo, uma homenagem do Globo Esporte ao eterno Doutor: