Quem vai a Paris a passeio normalmente tem uma séria dificuldade em estabelecer um roteiro de visitas. Paris é magnífica, e só as idas ao “programa obrigatório” já rendem, no mínimo, uma semana. Louvre, Torre Eiffel, Notre Dame, e por aí vai.
Pra piorar um pouco mais a dificuldade do viajante de primeira viagem, vou fazer aqui mais uma indicação de “coisas-que-você-tem-que-ver-em-Paris”. Um lugar que, ao mesmo tempo em que ostenta uma arquitetura de embasbacar, traz consigo um significado histórico único: o Hôtel des Invalides, ou, popularmente, Les Invalides.
Les Invalides é um conjunto arquitetônico grandioso. Se o conjunto não faz sombra à Torre em termos de altura, sobressai-se no restante. Imenso, ocupa uma área quase igual ou mesmo maior que o Champs de Mars, onde se encontra a Torre Eiffel. Eclético, possui um Domo, que já serviu de igreja, um museu e uma espécie de Panteão dos grandes heróis de guerra franceses. Refinado, possui uma riqueza nos detalhes e nas pinturas no teto que contrasta com a, digamos, “monotonia ferrífera” da arquitetura da Torre.
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O nome vem da origem de sua construção. Para receber os feridos em combate e, de certa forma, não desestimular os que ainda iriam a combate, Luís XIV tratou de conceber uma estrutura grandiosa, destinada a tratar de corpo e mente dos que enfrentaram o horror do campo de batalha. Assim, o complexo reúnia um hospital para tratar os feridos; uma manufatura para fazê-los voltar ao trabalho; uma igreja, para reconfortar o espírito; e um asilo, para quem efetivamente tornara-se inválido. Ainda hoje, Les Invalides recebe feridos dos combates franceses no ultramar.
Mas é a história por trás dele que fascina os visitantes. Lá, você pode visitar o Musée de L´armée, um museu que reúne objetos, artefatos, depoimentos e documentos históricos de todas as guerras em que a França se meteu. Levando em consideração que, desde a Revolução Francesa, a França esteve em litígio constante com boa parte dos vizinhos por mais de um século, não é difícil imaginar a riqueza de matéria-prima que você encontrará lá. Desde a Guerra Franco-Prussiana, passando pela I e II Guerras Mundiais, até a guerra de descolonização da Argélia, tudo estará lá, nos mínimos detalhes.
Ok. Os franceses “ocultam” Churchill e exaltam De Gaulle como maior figura da II Guerra Mundial. Mesmo assim, ainda vale a visita.
A principal atração dos Inválidos, no entanto, está no Domo. Com a cúpula dourada, ricamente ornamentada por dentro com pinturas setecentistas, Napoleão Bonaparte achou que a Catedral de Sant Louis des Invalides seria o lugar ideal para guardar seus restos mortais. Fora isso, o conjunto fica de frente para a Ponte Alexandre III, a mais bela das pontes de Paris.
Vaidoso até na morte, Napoleão arquitetou um modo de que, mesmo para seus restos, os mortais de todo o mundo lhe prestassem a reverência devida quando era Imperador do Mundo. O anão de pouco mais de metro e meio projetou uma tumba em dois níveis, com um grande vão redondo ao meio. No fundo do primeiro nível, jaz imponente sua tumba, onde facilmente caberiam uns 50 Napoleões. Entretanto, a tumba não é vista por quem entra pelo Domo. Para vê-la, é necessário achegar-se a um parapeito e, olhando para baixo, inclinar seu corpo do mesmo modo que se fazia com a reverência ao imperador.
Lá, na sobriedade majestosa do túmulo, jaz um corso que fez o mundo tremer.
Pra quem vai a Paris com tempo, o recomendável é deixar um dia inteiro para Les Invalides. Só o museu tomará um período inteiro, e mesmo a visita ao Domo levará um bocado de tempo. Além da tumba de Napoleão, há outros túmulos de heróis franceses, como Foch, além de uma pitada de nepotismo, como a tumba de José Bonaparte, irmão entronado pelo corso no trono da Espanha.
Além disso, vale a pena ar um giro por todo o complexo, admirando em cada pequeno detalhe a riqueza de uma construção que evoca o tempo em que a França era o centro do mundo. Esteja certo de que não vai se arrepender.
Gostei da sua descrição. Clara e objetiva. Me ajudou muito em meu trabalho de arquitetura.
Obrigado, Viviane. Estou em dívida com a seção de Arquitetura deste espaço. Vou tentar retomar os posts sobre o assunto em breve. Um abraço.