Nesse final de semana, Rubens Barrichello disputará, em Interlagos, aquele que provavelmente será o último GP de sua carreira. Por isso mesmo, talvez seja a hora de fazer uma retrospectiva de sua história da Fórmula 1 e, na medida do possível, tentar pontuar coisas boas e coisas ruins em sua trajetória nas pistas.
Rubinho começou com o pé direito. Em uma equipe pequena, a Jordan, começou a ganhar experiência nas pistas e, no mágico ano de 1994, conseguiu logo de cara seu primeiro pódio (um 3º lugar no GP do Pacífico).
Mas 1994 foi também um ano trágico. Na terceira corrida daquele ano, Ayrton Senna atingiu o muro da Tamburello a 200km/h e, no primeiro acidente grave de sua carreira, perdeu a vida. Numa nação que se acostumara a ver pilotos brasileiros paparem títulos em seqüência desde a década de 70 com Emerson Fittipaldi, subitamente Rubinho, aos 20 anos, tornou-se a única esperança de continuidade da saga vencedora.
Para Rubinho, a morte de Senna foi triplamente trágica. Primeiro, perdeu o amigo. Segundo, perdeu aquele que lhe ensinava as manhas da direção e, também, o tortuoso caminho das intrigas do paddock. Terceiro, teve de carregar nas costas o luto de uma nação inteira, privada de um ídolo no auge da carreira. Quanto a este último aspecto, Rubinho ainda sofreu com a pressão da Globo, que desejava catapultá-lo imediatamente à condição de novo Senna, tudo para sustentar as cotas dos patrocinadores da F1.
Passados 19 anos, pode-se afirmar uma coisa com segurança: Rubinho não estava preparado para isso. Não tinha tarimba suficiente para carregar o peso de ser ídolo e esperança de uma nação, nem muito menos seu talento se comparava ao de Senna.
É fato: a Rubinho não se deve imputar a culpa de não ser tão bom quanto Senna. Quanto a isso, é difícil imaginar que alguém, em algum ponto no futuro, venha a alcançar tal façanha. Mesmo assim, a carreira de Rubinho seguiu um sobe-e-desce quase sempre prejudicial a ele. E, na maior parte dos casos, as decisões erradas foram fruto única e exclusivamente de sua vontade.
Depois de sair da Jordan, Rubinho foi para a Stewart. Liderada pelo lendário Jack, que dava nome à equipe, a Stewart era um passo adiante em relação à Jordan. Não era ainda uma equipe grande, mas como uma equipe competente, serviria de trampolim perfeito para alguma equipe de pronta, uma vez que Barrichello ganhasse mais quilometragem.
Dito e feito. Em 1999, com um carro muito bom, Rubinho conseguiu 3 terceiros lugares e uma pole position. Com isso, atraiu a atenção de várias equipes grandes. Entre elas, a da McLaren. Ao invés de aceitar a proposta da McLaren, e ser segundo piloto de Mika Hakkinnen, aceitou uma proposta milionária da rival Ferrari e foi ser segundo piloto de Michael Schummacher.
A Ferrari teria um carro melhor no ano seguinte, mas, nesse ponto, faltou visão a Barrichello. Se tivesse refletido com a cabeça e não com o bolso, veria que Mika Hakkinnen logo se aposentaria, e o posto de primeiro piloto lhe cairia no colo. Ficando na Ferrari, amargou por anos a fio a condição de segundo piloto de Michael Schummacher que, além de ser um piloto infinitamente mais talentoso, ainda tinha muitos anos para correr.
Fora isso, ainda se submeteu a várias humilhações públicas na pista, para poder dar a vitória a Schummacher. Dessas, a mais clássica é a do GP da Áustria, com Cléber Machado implorando numa narração impagável: “Hoje não! Hoje não”, até se resignar tristemente: “Hoje sim…”
Como disse certa vez Nelson Piquet, se Barrichello tivesse optado por comer grama na McLaren por algum tempo, sua trajetória na F1 teria sido outra.
De todo modo, com um carro de ponta na Brawn em 2009, e em pé de igualdade com seu rival na equipe, Barrichello não conseguiu superar Jenson Button. Com carros idênticos e sem a primazia existente na Ferrari de Schummacher, ainda assim Rubinho não conseguiu ganhar o título de campeão do mundo. Ficou em 3º, atrás do hoje bicampeão Sebastian Vettel.
Sobre Barrichello, portanto, o que se pode dizer é que carrega o estigma de não ser tão bom quanto o público brasileiro gostaria que fosse.
Mas a pergunta que não quer calar é: a culpa é dele?