Egito em convulsão – parte II

Quando estouraram as manifestações na Praça Tahir no começo do ano, todo mundo celebrou o início daquilo a que se viria chamar – equivocadamente, segundo este que vos escreve – de “Primavera Árabe”. As manifestações populares eram vistas como um sopro democrático numa região infestada de ditaduras por todos os lados.

Ceticamente, perguntava eu: ‘É democracia que os egípcios querem? Ou só a troca de guarda?”

Com o tempo, Mubarak caiu, e hoje, para glória do judiciário e do Estado egípcio, enfrenta um processo para responder pelos 30 anos de cleptocracia faraônica. Caiu no exato momento em que o Exército, única força (literalmente) capaz de mantê-lo no poder, roeu sua corda.

Mas se foi o Exército quem, na prática, derrubou Mubarak, por que agora a população está a se revoltar contra ele?

Por um simples motivo: quando os militares resolveram defenestrar Mubarak, fizeram isso não por convicão, mas por conveniência. Não havia nem na mais remota profundeza de suas almas qualquer pendor democrático. Fizeram isso porque os Estados Unidos mandaram. Comprados ao custo anual de US$ 1,8 bilhão, os militares fariam o que os americanos quisessem.

“E por que os americanos derrubaram Mubarak?”

Simples: antes que a coisa degringolasse de vez, melhor trocar a guarda e – com isso – tentar aplacar a fúria da população. A manutenção da convulsão social poderia resultar muito bem numa revolução islâmica. O raciocício, portanto, era o seguinte: antes uma junta militar amiga do que uma revolução islâmica a ungir clérigos anti-americanos.

Agora, depois da queda de Mubarak, o Exército reluta em passar o poder democraticamente para as mãos do povo. E o fundamento é o mesmo. Teme-se que o povo, na sua sagrada “ignorância”, eleja algum partido revolucionário islâmico qualquer. Por isso mesmo, a tentativa frustrada de enxertar no futuro texto constitucional uma “salvaguarda” de que o poder supremo do país reside não no seu povo, mas nas suas forças militares.

A questão, ao menos ao que parece hoje, é que o povo egípcio não topou fazer o papel de otário. Eles não derrubaram Mubarak para agora se virem tutelados por um governo militar títere dos americanos. Querem eleger seus representantes, e seus representantes não vestem verde-oliva.

Engana-se, porém, quem pensa que eles querem democracia à moda ocidental. Pode até ser que parte da população a deseje, mas dificilmente um governo parlamentarista nos moldes “civilizados” do ocidente duraria muito tempo naquelas bandas. A população não queria Mubarak, é fato. Tampouco quer os militares. Mas isso não significa necessariamente que querem um governo que garanta direitos fundamentais e um governo de leis seculares. O que querem é um governo islâmico, de vocação quase teocrática. Ou, em termos mais simples: não querem uma ditadura dos homens, mas uma ditadura de clérigos.

Pra quem esperava uma “Primavera Árabe”, o Egito pode revelar-se o estopim do mais gigantesco retrocesso político deste começo de milênio.

Vamos torcer para que não…

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