Desde a semana passada o mundo vem sendo sacudido com notícias belicistas entre Israel e Irã. Ladeados pelos americanos, os israelenses já falam abertamente numa ação militar contra as instalações nucleares iranianas. A pergunta que está no ar é: haverá ou não uma nova guerra?
Em termos de Oriente Médio, sempre que há fumaça, há fogo. A história está recheada de exemplos: Guerra da Independência de Israel, 6 Dias, Yom Kippur, Golfo (I e II) e por aí vai. Por essa ótica, não dá pra esperar boa coisa. Mas essa é só uma pequena parte do cenário.
Por óbvio, pode-se dar de barato que o Irã está em busca de uma arma nuclear. Mesmo que esse não fosse o objetivo inicial de seu programa nuclear, depois de vê-lo ameaçado por americanos e israelenses, é natural pensar que os seus militares devem ter pensado no artefato apocalíptico como instrumento de dissuasão. Afinal, pra quem está geograficamente entre Afeganistão (com o exército americano) e Iraque (idem), faz sentido desconfiar das intenções de seus “vizinhos”.
É fato: Israel jamais deixará que algum inimigo seu possua uma arma nuclear. Seja ou não culpa sua, Israel sabe que, no momento em que algum de seus vizinhos hostis detiver uma bomba desse tipo, é melhor mandar evacuar todo o seu território, pois a ameaça de desaparecer num holocausto nuclear será real e concreta. Por isso, não se duvide das palavras dos israelenses quando dizem que farão de tudo para impedir o Irã de deter uma bomba nuclear.
“Ué? Então por que ainda não atacaram?”
Por dois motivos. Primeiro, porque o Irã ainda não detém a bomba. Logo, ainda há tempo de tentar impedi-lo por outros meios. Segundo, porque Israel jamais dará um passo nessa matéria sem o apoio dos americanos. Às voltas com três guerras no Oriente Médio, tudo que os americanos não gostariam agora era de entrar numa quarta.
A despeito de ser uma questão geopolítica, por incrível que pareça o que a move são as questões internas de cada país. O Irã está à beira do colapso. A “primavera árabe” só não chegou totalmente porque os protestos – principalmente de estudantes – foram violentamente reprimidos. E, como o Irã não é a Líbia, ninguém se dispôs a aprovar uma “zona de exclusão aérea” para ajudar a população. Fora isso, a inflação subiu, aumentando ainda mais a insatisfação do povo com o governo dos aitaolás. Pra piorar, o intrincado equilíbrio de poder entre clérigos e governantes seculares ameaça se romper. Ahmadinejad enfrenta um pedido de impeachment, enquanto parte do Parlamento discute a diminuição dos poderes do Conselho dos Anciãos e do Líder Supremo, verdadeiros governantes do país.
Enquanto isso, em Israel as coisas não estão nada boas, também. Parte da direita israelense ressente-se da simpatia internacional à causa palestina, e defende a aceleração da “política” de ocupação dos territórios ocupados. Fustigado pela impopularidade decorrente de uma crise econômica que provoca recessão e desemprego, e que fez pipocar passeatas contra o governo (curiosamente ignoradas pela imprensa), Netanyahu tem no Irã o pretexto perfeito para desviar a atenção dos eleitores dos problemas internos e “unir o país” contra o inimigo externo comum.
A questão, contudo, vai depender do apoio (ou não) americano à empreitada.
Em condições normais de temperatura e pressão, eu apostaria numa guerra. Afinal, nada melhor do que uma guerra conveniente para catapular a popularidade de um governante. Considerando-se que ano que vem Obama tentará a reeleição, o Irã serviria perfeitamente como plataforma de campanha nos EUA.
Mas, levando-se em consideração que o governo Obama elegeu-se com a promessa de trazer as tropas americanas de volta de guerras no fim do mundo, é difícil pensar num apoio direto americano ao ataque ao Irã. Além disso, mesmo se entrasse de lado (como foi o caso da Líbia), Obama seria atacado à direita (por não ter apoiado diretamente) e à esquerda (por fomentar mais uma guerra).
Tudo considerado, pode-se apostar que, a menos que apareça uma prova cabal da existência de um artefato nuclear no Irã, não haverá qualquer ataque ao país antes das eleições americanas em 2012.
Já depois…